O “corpo mole” da Vale


Hoje, todos somos blasés.
Tudo o que aparecer nós já teremos visto em nossa telinha particular do celular. Fomos até o local? Vimos de perto aquela descoberta extraordinária? Não; mas não havia necessidade: estávamos muito longe fisicamente do local, sendo certo que, em nossa mágica telinha, aquela descoberta se materializou diante de nossos olhos!
Todas as notícias que recebemos tornam-se dramas passageiros, como se fossem uma problemática em uma série dessas muito em voga hoje: desligada a TV, mudado o canal e… ela não existe mais!
Vivemos os dramas de terceiros ao nosso redor; vide a tragédia de Mariana e a mais recente de Brumadinho. Dessa mesma forma e, a menos que nos engajemos numa cruzada tentando ajudá-los, vamos deitar e não nos ocorre que a situação de todos os parentes e sobreviventes, que deixaram compulsoriamente suas casas e não têm nenhuma ideia de quando poderão voltar ou de quando serão ressarcidos…
Esse drama é de tal monta e ainda assim não conseguimos nos ver sofrendo essas agruras: escorchados de nossas próprias casas porque “um comércio” – e a Vale do Rio Doce nada mais é do que um reles comércio – nos impossibilita de voltar para casa, de viver no nosso pedaço de chão!
Não conseguimos nos imaginar longe do local que escolhemos para morar, distantes das “nossas coisas”, das nossas gavetas, das nossas referências como pessoas que não estão vivendo uma guerra. Ou não estavam, até serem alijados de seus companheiros de vida, carregados que foram pelo mar de lama…
Meses após estas catástrofes, as pessoas permanecem “acampadas” como se fossem retirantes, migrantes involuntárias, destituídas de tudo o que construíram ao longo de uma vida.
Quanto vale isso? Como ressarcir essa gente toda que não têm como chegar na Vale e pegá-la pelos colarinhos, ou pelos cabelos – ela não se materializa dessa forma…

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