14 de abril de 2024
Colunistas Walter Navarro

O ópio e o pio do povo

Sinto muito decepcionar os muitos, mas não foi o Benito di Paula, nem o Joãosinho Trinta, o inventor do Carnaval.

E já vou avisando que, CCrnaval para mim, sempre foi uma alegria forçada, obrigatória; uma enorme quarta-feira de cinzas. Prefiro rever “A Paixão de Cristo”, do Mel Gibson, em aramaico, a sair pelas ruas, de camisa amarela, abrindo alas por aí.

Claro que já participei de outros carnavais, mas foi quase por engano, quase por obrigação. Primeiro foram os de clube, com fantasias ridículas, depois nos bares e ruas, passando ridículo.

Sou antiquado, quando ridículo, prefiro ficar sozinho.

Estraga prazeres, conto a vocês que o carnaval começou na Mesopotâmia, onde hoje é o Iraque e o Irã, países que não aconselho ninguém a soltar um grito de carnaval. Se der tempo de gritar…

Por exemplo, na Babilônia, capital da Suméria (Iraque), em vez de Carnaval, tínhamos as Saceias; uma celebração em que um prisioneiro assumia, durante alguns dias, a figura do rei, vestindo-se como ele, alimentando-se da mesma forma e comendo suas esposas. Ao final, o prisioneiro era chicoteado e depois enforcado ou empalado. Pessoalmente, prefiro ficar preso a comer canja e depois ser empalado com frango.

Mas o negócio, como o samba, evoluiu muito.

Revendo a série “The Crown”, uma nobre esnobe, acha que o primeiro ministro inglês é ignorante e explica a ele o que eram as Saturnálias. Mas ele sabia, e ela quebrou a cara. O ignorante era eu.

Mas nem tanto. Sou ardoroso correligionário de Baco, o deus do Vinho e de outros prazeres. E de Baco vem as bacantes e os bacanais, orgias, surubas, captaram?

Infelizmente nunca participei de uma orgia, com uvas e vulvas, mas ainda dá tempo. Espero… Só não pode ser suruba portuguesa, conhecem a piada, não é?

Além de bacanal, sempre apreciei e uso um provérbio da Antiga Roma para o Carnaval: “Semel in anno licet insanire”. Ou seja, uma vez por ano é permito enlouquecer.

O que eu não sabia é que a frase era inspirada nas tais Saturnálias, homenagem a Saturno, o deus do Tempo, claro, porque as Saturnálias eram festas pagãs, por ocasião do solstício de inverno.

Está ficando confuso? Calma aí. Vou consultar o Benito Di Paula.

Os antigos imperadores sabiam se divertir. Nero, Calígula e Berlusconi não me deixam mentir.

Nas Saturnálias, em dezembro, muita comida, bebida e dança que, certamente, acabavam em saliência. Aí entra a lição da série “The Crown”: nas Saturnálias, os senhores serviam os escravos.

Além deste troca-troca hipócrita, acontecia também outra festa, com nome ainda mais bonito, a Lupercália, em fevereiro, onde as pessoas saiam vestidas de animais pelas ruas.

Conhecem a piada do cara que sai fantasiado de veado, o bicho, e o outro de caçador? Melhor deixar para lá…

No mais, se um dia eu tiver filhas gêmeas, ou não, já escolhi seus nomes: Saturnália e Lupercália. O problema é que elas vão escolher meu asilo…

Bom, chega de aula porque aí entra igreja e Religião no meio da Idade Média e este assunto renderia até o Carnaval de 2026.

No mais já estou sedento por uma cerveja, a primeira do Carnaval que, não é a festa da carne como eu pensava, mas o contrário.

Carnaval vem do latim “carnis levale”, ou seja, “retirar a carne”. Não esqueçam que é a festa da subversão da ordem, quando as coisas deixam de ser como são, pelo seu inverso.

Como por exemplo, hoje, homem que fantasia de mulher… Na verdade o inverso deveria ser o contrário do contrário, mas vamos deixar isso também para outras quaresmas.

O “carnis levale” servia para as pessoas extravasarem seus desejos, chutarem o balde, antes de iniciarem a tal da Quaresma, com seu terrível e obrigatório jejum.

A expressão significa “retirar a carne” e representa o Carnaval, uma despedida de solteiro dos prazeres carnais. Daí a Terça feira Gorda, entenderam? O último dia de esbórnia, o “Vale Tudo” do Tim Maia.

Não deixa de ser irônico que um dos motivos da decadência do Império Romano, o maior de todos os tempos, foi esta bagunça de Carnaval com sexo e vinho.

Outra ironia vem dos bárbaros que também jogaram água no vinho dos romanos. Escandinavos e germânicos, hoje, são os povos mais civilizados e chatos do planeta.

Bom, todo este blá-blá-blá para quê? Pra tudo se acabar na quarta-feira? Claro que não. Mesmo porque ninguém respeita dia de semana, muito menos se for de cinzas.

O Brasil é uma brasa, mora? Por isso somos uma enorme churrascaria, como já diria o Arnaldo Jabor, ontem…

Bom, vou abrir o primeiro latão e aí termino esta prosopopeia momesca e deixo vocês saírem urrando pelos bosques e ruas. Já volto.

E volto com outra citação que adoro: “Não se pode esperar muito de pessoas que vivem de futebol, carnaval e televisão. Que dirá de um país”. A máxima é de Renilmar Fernandes. Quem será? Primo do Bolsonaro, que trabalha na Disney, como Pateta?

Tudo bem, no bloco do “Eu Sozinho”, sou mais o Mickey que os Irmãos Metralha e o Mancha Negra.

Impressionante como o Brasil é corno manso! Todo aquele barulho por nada.Vou nem falar da Ucrânia, Turquia e Síria; seria heresia e covardia.

Mas posso voltar à Mesopotâmia, mais precisamente ao Irã, pegando fogo. E olha que lá, manifestante, mesmo sem comer a mulher do Rei, acaba executado em praça pública.

Mesmo assim, há meses, iranianos e principalmente as maiores vítimas, as iranianas, continuam a enfrentar polícia e Exército. E quando digo Exército, é Exército de verdade, não este de Brancaleone aqui.

E a França? Milhões nas ruas, porque o Macron “Lacron” quer que os órfãos de Asterix trabalhem até os 64 anos, em vez de 62. Aos franceses só digo uma coisa: bem feito!

Enquanto isso, o Brasil está onde sempre esteve; colocando outros milhões nas ruas. Não de manifestantes, mas de foliões em busca da Covid-23 e da sífilis.

O brasileiro saiu dos quartéis e voltou direto para o circo, de onde nunca saiu; desempenhando seu melhor papel, o de Bozo. Ou Mané, como disse a voz da verdade.

Estou pedindo, cobrando nada. Mesmo porque já disse que vou ficar em casa e nem os desfiles vou ver. Por quê? Porque o Carnaval brasileiro também vive sua decadência romana.

Na adolescência, quase escondido dos meus pais, mesmo achando samba enredo a música mais chata e repetitiva do mundo, eu ficava grudado na TV. E não era para ver a Mangueira e muito menos a Ala das Baianas.

Era pra ver as mulheres mais lindas e gostosas do planeta. Mulher de verdade, natural. Mais peladas que nuas. Na boba inocência, eu não entendia como um minúsculo retalho de cetim podia esconder aquele maravilhoso e misterioso Triângulo das Bermudas, onde até hoje adoro cair, afundar e me perder em suas regiões mais abissais, saborosas e perfumadas.

E depois dos desfiles, tínhamos os bailes mais libertinos e explícitos, onde rolava tudo, tipo os da Ilha Porchat. Hoje, só temos o Fábio Porchat… Um tipo de Randolfe, ainda mais saltitante.

Nos desfiles atuais, só o samba enredo continua insuportável. As mulheres podem mostrar nem os peitos, um pecado! Pecado original!

E isso, se elas forem mulheres de verdade porque se bobear, o whisky ali é paraguaio de 33cm. Pela TV, parece que você está sobrevoando o Vale do Silicone ou participando de um júri para escolher o melhor Arnold Schwarzenegger.

Neste Sanatório Geral que está o Brasil, talvez seja melhor fingir de morto e sair ao natural, vestido de palhaço.

O problema são os Coringas que se infiltram na lona, quebram o picadeiro, comem o leão, as girafas, os elefantes da Amazônia e depois culpam a grande cartomante, a internacional Deise, a mulher do homem que come raio laser.

ps: E atenção! Nem tudo está perdido no País do Carnaval, acabaram de liberar a marchinha oficial: “Nós, nós os carecas, com as mulheres somos maiorais, pois na hora do aperto, é dos carecas que elas gostam mais. Não precisa ter vergonha, pode tirar seu chapéu. Pra que cabelo? Pra que, seu Queiroz?

Agora a coisa está pra nós”.

Walter Navarro, Veneza, 17 de Fevereiro de 2023

Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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