O Ano em que Vivemos em Perigo

Este lindo vírus, que mais parece um asterisco ou uma mamona assassina, está matando e ainda vai matar muita gente.
Mas já pensaram se ele provocar, além de mortes, amores?
Tenho um texto para cinema ou teatro, infelizmente só na cabeça, por enquanto, contando uma torta história de amor com final feliz. Uma ficção, claro.
É mais ou menos assim.
Um casal, formado por uma mulher e um homem (é preciso insistir que alguns homens ainda gostam de mulheres e vice-versa), depois de bela história de amor, se separa, durante uns 20 anos.
Os dois bebem rumos completamente diferentes um do outro. Moram em várias cidades diferentes, mas, ignorando, acabam voltando para a cidade onde nasceram e se conheceram.
Nenhum contato mesmo, durante todo este tempo gigante. Ela casou-se, teve filhos e se separou. Ele continuou solteiro com um amor em cada porto alegre e inseguro. Triste e sozinho.
Um dia, exatamente um 31 de dezembro de sei lá que ano, são convidados para a mesma festa de Réveillon. Uma enorme festa, na cobertura de colossal e chique prédio, com vista para tudo; para o mar, para as montanhas, para a neve, até para a Terra.
O filme (ou a peça) começa com os dois, cada um em sua casa, preparando-se para o ano novo. Ambos, meio entediados, meio preguiçosos, meio que obrigados a ir, apenas para passar o tempo, mais uma data chata, recheada de convenções, fatalidades e falsidades.
Sempre ignorantes, claro, tiveram a mesma ideia: chegariam lá, fariam uma social, com muito álcool para convocar Morfeu e tornar os chatos, interessantes. Depois da meia-noite angustiante, à francesa ou à la Brexit, bye-bye a mais uma festa cheia de gente vazia.
E foi o que fizeram. E durante a festa, com tantas pessoas de plástico, inclusive amigos em comum, não se encontraram, nem se viram.
A mulher, 13 minutos depois da contagem depressiva e regressiva, corre para o elevador. O homem, dois minutos depois dela.
A porta do elevador está fechando quando ele pula dentro. Deu nem tempo de ver quem estava lá. A porta do elevador se fecha, bem mais fácil que um grande amor.
O elevador começa descer e aí é que um olha para a cara do outro. Sem palavras, só “olhos nos olhos, quero ver o que você diz, o que você faz”. Mas nenhum dos dois fala ou faz. Mentira! Ele rindo, diz um reles “oi”. Ela nem isso, nem responde. Desvia o olhar e, só depois de um andar, responde: “Tudo bem?”.
Ele olha para cima, ela para baixo. Ou vice-versa. Indiferente, o elevador continua sua rápida ou lenta faina. Podem escolher. O importante é que o elevador para, entre dois andares. Podem escolher os andares também.
Lá fora, um enorme apagão, na cidade inteira. Dentro, uma pequena luz de emergência.
Os dois em silêncio, o elevador ainda mais, porque não respira.
Ele diz:
– Calma, a luz vai voltar.
Ela responde:
– Quem disse que estou nervosa?
Ele sorri ou ri, podem escolher, inclusive o que cada um pensou: “ele/ela mudou nada…”.
“É desconcertante rever o grande amor”.
Claro que não vou contar o final da história. Esperem o DVD ou sair na Netflix.
Só entreguei minha genial ideia de roteiro para falar que, certos casais só conversam, só se entregam, só confessam; só amam ou brigam para sempre, num confinamento. Numa quarentena forçada, trancados em um apartamento, presos num elevador parado ou esquecidos numa caverna.
Onde e como fica “O Amor nos Tempos do Cólera”, “Onde Você Estava Quando as Luzes se Apagaram?”, “A Última Vez que Vi Paris”, “Morte em Veneza”, “A Peste”, “Um Diário do Ano da Peste”?
Ver Palermo e morrer.
Rever Siracusa.
Enquanto isso, imagino outro roteiro.
Imagino outro casal (homem e mulher, sorry) até então virtual. Casal de Facebook.
Eles moram em cidades diferentes. Um no Oiapoque, outro no Chuí. Se conhecem depois das fotos, algumas frases e alguma espionagem. Se paqueram, se provocam, discutem, brigam por toleimas, dão uma “soneca”, voltam, recomeçam, explicam, riem, conversam mais, se apaixonam e combinam um encontro.
Numa cidade, no meio do caminho, podem escolher.
Ou ele vai para a casa dela ou ela para a dele, podem escolher.
Eles se encontram, se beijam, se amam, se riem, se conversam, se transam de novo, se comem, se bebem e se repetem tudo de novo.
Aí chega o vírus chinês! É chinês sim!
Aí um governador ou um prefeito, podem escolher. Os dois decretam draconiana quarentena, confinamento sem misericórdia.
E os dois, dentro e longe do mundo ficam lá, dentro deles, do mundo deles.
Vários dias ou semanas, podem escolher.
Podem escolher o final desta outra história também. Tédio ou vodca sueca?
Nunca mais outra vez?
Era uma vez um final feliz?

PS: Como a história é minha, o final também é. E não é chinês. É japonês de Pequim ou de Tóquio, podem escolher. Como aquele soldado que ficou décadas numa ilha deserta, achando que a 2ª Guerra Mundial ainda continuava.

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