11 de agosto de 2022
Walter Navarro

A coragem que precisa de máscara


Introvertido, tímido ou simplesmente triste, nunca fui chegado em Carnaval.
Todavia, sem saudosismo, tenho algumas parcas e coloridas lembranças de outros carnavais. Carnavais da infância, quando minha mãe fantasiava a mim e meus irmãos de índio, pirata, etc.
Eram carnavais sem lança perfume, muito confete, serpentina e marchinhas.
Carnaval de 2018, acho que no Pará, ameaçaram processar uma linda mulher fantasiada de índia. Detalhe: ela era descendente de índios.
O Politicamente Correto é tão estúpido que chegou a este ponto absurdo: processar uma índia fantasiada de índia. Não fosse índia, poderia ser processada por usar penas, uma covardia indecente contra as aves.
Até aí, concordo. Usar um casaco de peles no tempo das cavernas ou nos invernos mais antigos do passado não era opção, mas simples necessidade. Hoje, acho indecente e criminoso matar animais para se vestir ou se exibir.
Mesmo que eu tenha um sapato de couro para velórios e casamentos, o que é a mesma coisa.
As marchinhas de Carnaval da minha infância eram alegres, maliciosas, românticas, engraçadas, malandras, alegres, felizes. Hoje – como os livros de Monteiro Lobato, acalanto de infinitas gerações – correm risco de processo judicial. São taxadas de homofóbicas, racistas, misóginas, genocidas. É crime inafiançável, hediondo, imprescritível.
Mas mulheres e homens (sic) do funk, por exemplo, podem gritar e rebolar, à vontade, “versos satânicos” como “estou molhadinha”, “põe no meu cuzinho…”.
Sinal e final dos tempos.
Em 2012 ou 2013 fui conhecer o famoso Carnaval de Ouro Preto, que dispensa comentários.
Felizmente no terceiro dia, voltei para Belo Horizonte, que estava às moscas. Era, como São Paulo, o Túmulo do Samba. Era… Eram… Cuidado com o que você deseja…
Fui tomar uma (uma atrás da outra) na Pizzaria Sion. Lá, encontrei um amigo que disse: “Cara, cê tá perdendo. O Carnaval na Floresta (bairro de BH) tá pegando fogo. Uma mulherada…”.
Nem a mulherada me convenceu. Fiquei feliz e sozinho em casa.
Foi o estopim. Ano seguinte, já antecipando a crise econômica, muita gente não viajou. Os mais animados começaram a formar blocos de bairro. Lembro me de um que desceu do Santo Antônio (outro bairro) para a Savassi (este, território meu). Já achei meio estranho, meio “Walking Dead”, réquiem de Mozart, mas tudo bem.
Em 2015, a cidade toda estava dominada. Além de não perder seus habitantes para o interior e praias, BH começou a atrair gente de todo o Brasil.
Bom pro turismo, né? Kkkkkkkkkkkk.
Nada contra, no meio de tanta alegria forçada, desespero disfarçado, tem gente que gosta, de verdade. Inveja!
Pausa para lembrar que, muito antes, passei um Carnaval na cidade de São Paulo, cidade fantasma. Cenário de “Ensaio sobre a Cegueira”. Depois, outro no Rio de Janeiro, logo quando estourou a moda dos blocos de rua. Que sorte!
Acho que, há uns quatro anos, passo o Carnaval longe de qualquer Carnaval. Este ano, ainda mais radical, nem a TV liguei. Em compensação, há cinco dias estou na Europa, mais exatamente entre 1939 e 1945, assistindo a todos os documentários franceses, no You Tube, sobre a 2ª Guerra Mundial.
Quando pelo Facebook vejo fotos do Carnaval em BH, tenho certeza de que, entre a guerra de verdade na TV e a guerra genérica nas ruas e bairros de BH, fiz a escolha mais sensata e inteligente; modéstia às favas e às picas.
Em fotos e relatos acompanho, aqui – hoje é terça gorda, último dia – “malgré moi” (sem querer) a “Festa da Carne” em BH.
Vou tentar resumir porque este texto ficou longo.
Muita gente celebrando o Carnaval dos Protestos. Protestos contra quem, quem? Raimundo Nonato? Não, contra Bolsonaro, claro.
Bolsonaro é aquele meliante que aproveitou o velório do próprio neto como palanque.
Os protestos e protestantes estão certíssimos! Claro que a culpa é do Bolsonaro.
O mundo inteiro aprendeu, com os japoneses, na Copa do Mundo no Brasil, a limpar a sujeira nos estádios, depois dos jogos. Todo mundo, menos o Bolsonaro, este porco selvagem.
Foi Bolsonaro que baleou várias pessoas no centro de BH, neste carnaval. Claro, ele liberou as armas, certo?
Foi Bolsonaro e seus asseclas que saíram quebrando tudo na rua Pernambuco, Savassi, ontem, segunda feira.
Foram os filhos do Bolsonaro, o Queiroz e a Damares que mijaram na cidade inteira. Foram eles também que transformaram a avenida Getúlio Vargas em pântano e lixão.
A horda sujava e quebrava tudo gritando “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.
Bolsonaro e sua turma de vagabundos repetiram o vandalismo das manifestações de 2013, mascarados de Black Blocs, no anonimato da massa.
Estão certíssimos os protestos e os protestantes.
No tempo do PT, o País do Carnaval e de Jorge Amado, era uma Gabriela só, um jardim!
Afinal de contas, em dois meses, o governo Bolsonaro promoveu Mensalão, Petrolão e mil outras falcatruas.
Em dois meses, Bolsonaro quebrou o Brasil. Por isso, este povo bravo, inteligente e corajoso rebela-se e exige a derrubada do golpista que usurpou o poder da genial Dilma e botou, Lula, um inocente, na cadeia, ainda que seja como preso político, claro e não como um bandido qualquer.
Fora Bozo!
PS: Na Roma Antiga, o Carnaval era justificado com a lei “Semel in anno licet insanire”: uma vez por ano é permitido enlouquecer. Como se escreve, em latim que, no Brasil, todo santo dia é permitido enlouquecer e acabar com o que nunca começou?

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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