16 de agosto de 2022
Walter Navarro

Caro querido Careca


Não adianta. Já cansei de pedir a Deus pra errar meus amigos, mas ele não me dá ouvidos. É um atrás do outro.
Quando o Saul Vilela – o primeiro amigo – me avisou, pelo WhatsApp, o “Falecimento de Carlos Alexandre Dumont (Carico), respondi na hora: “Puta merda. Mais um, menos um. Estou em Barbacena”.
A porra do (des)corretor do WhatsApp escreveu: “Pita merda. Mais um, menos um. Estou em Barbacena”. Fiz questão de, rapidamente, corrigir o corretor: “Puta…”.
Não tive o privilégio de ser íntimo do Carico. Mas sempre o vi e olhei como um amigo. E para mim, basta.
Um cara generoso, inteligente, culto, engraçado, fino, elegante. Não conheço os defeitos que tinha. Nem quero.
Arquiteto. Grande arquiteto. Estilo branco e “clean”, a cara dele, inclusive quando usava o bigode de Santos Dumont.
Foi sempre um prazer encontra-lo em 1001 eventos sociais, festivos.
Bom papo, bom copo.
Pedi e ganhei dele uma das 100 ilustrações para meu segundo livro de 100 crônicas, “Creme e Castigo” (2012).
E tenho uma, entre várias, noite preferida com ele. Jogávamos conversa no Universo, quando pintou o papo de certa e chata insônia que começava a me irritar.
Carico foi rápido no gatilho e me humilhou: “Walter! Um cara moderno como você, não toma remédio para dormir?”.
Mal sabia ele que não sou Dumont, nem Drummond; nem “moderno, muito menos eterno”.
Ouvi a mesma frase, muito tempo depois, no mesmo 2012, de outro amigo, Celso “American Airlines” Picchioni: “Walter! Um jornalista tão inteligente como você, não conhece Nova York?”.
Ambos podem ficar tranquilos. Celso sabe que, menos de um mês depois, eu estava em Nova York.
Carico vai saber agora, tarde demais. De tão acordado, meu amigo, desde 2015, de tempos em tempos, tomo remédio para dormir. Mas continuo nada eterno ou moderno.
Tinha outra coisa engraçada “chez” Carico. Ele tem um irmão super gêmeo, idêntico mesmo. Se Carico é Carlos Alexandre, o irmão gêmeo é, claro, Alexandre Carlos. Segundo sei lá quem, a única diferença é que o segundo, tem uma mancha ou pinta na perna esquerda ou direita. Também não quero saber, kkkkkkkkkkk.
Quando eu morava à rua Santa Rita Durão, num prédio de três andares, bem atrás da Sorveteria São Domingos, saindo de casa, dei de cara com Carico e falei: “Canalha! O que está fazendo em meus domínios?”.
Não era o Carico, era o irmão dele, visitando a mãe deles, no meu prédio.
Restou-me pedir desculpas e explicar que Canalha é o tratamento carinhoso que reservo aos meus mais queridos cúmplices.
Mal educado, o tempo foi passando a mão em nós, sem pedir licença. A companhia de Carico, entre outros comparsas nas boas coisas da vida, foi rareando.
Até o dia em que soube que ele estava muito doente. A porra do maldito câncer. A mesma traiçoeira doença que, anos antes, ceifara outro “gentleman”, amigo e arquiteto, Veveco Hardy.
Além do talento profissional e pessoal, Carico teve a sorte de ter, até o fim, uma grande mulher e companheira, Elisa Atheniense. Porque, atrás de todo grande homem, existe uma mulher ainda maior.
Ano passado, aqui pelo Facebook, inbox, claro, falei com Elisa, pedi notícias do amigo. Ela me contou que ele tinha passado por péssimos bocados, mas melhorado.
Feliz, convidei me para visitá-los. Uma dama como sempre, respondeu que ela e Carico teriam enorme prazer em me receber para um vinho; as boas e velhas risadas, conversas de sempre.
Acontece e aconteceu que, eu já estava em Barbacena, e também, nenhuma “Brastemp” em termos de saúde.
O vinho nunca aconteceu, agora, só se for a dois tendo o terceiro, Carico, como anjo e testemunha. Um beijo, “chérie” Elisa.
Também tive sorte, em conviver com Carico.
E terei ainda mais se, sem querer – como da primeira e única vez – encontrar me com o irmão dele. E achar que é ele. Vivo, sorridente, com ou sem bigode.
PS: Carico querido, ainda é cedo, mas, mais tarde, vou tomar meu “Rohydorm – Flunitrazepam”, tarja preta, como me recomendou. Se a sorte por persistente como Deus, espero ter um pesadelo com você, me xingando de, enfim, moderno.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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