Joaninhas


E aí, sem aviso prévio, chega a tristeza e se instala. Você começa a pensar para trás e decide que tudo o que fez não foi legal nem valeu a pena. Que evitou ter discussões e que, exatamente por isso, deixou passar os momentos em que teria sido útil e importante dar seu parecer ainda que não fosse do agrado de todos, só do seu!
Teria valido a pena insistir em fazer o que tinha vontade,  impedir as maluquices, enfim… bater o pau na mesa e dizer: “Ou é assim…ou é assim!” Claro, teria rolado um tremendo mal-estar, teria havido portas batendo, gente gritando e dentes rangendo.
Teriam me chamado de bruxa, criticado até dizer chega e eu teria mantido a resolução, dando uma de Chico Anysio, do garoto Quem- Quem: “Morro teso, mas não perco a pose”…
Passado o vendaval – e uma coisa que me encanta é que hoje consigo acreditar que tudo passa – eu teria saído de casa para comprar um chocolate ou olhar vitrines e, talvez, tivesse entrado em um cinema e assistido o que quer que fosse que me permitisse chorar lágrimas de crocodilo ou rir a bandeiras despregadas…
Depois disso, refeita e com fome, iria tomar um café com leite e pediria um croissant que, vindo daquela padaria, era quase uma heresia chamar-se assim, com essa pompa… E, para disfarçar a falta de manteiga, eu o pediria com presunto e queijo, um finto “croque monsieur” de inspiração francesa, que eu comeria até a última migalhinha, quase como se estivesse…  sei lá onde, mas de barriga cheia!
Chegando a hora de encarar a realidade – já que a tudo se sobrevive nessa vida, até a descobrir que se ficou sozinha – o que, em algumas circunstâncias, pode até ser bom…
E talvez por isso mesmo, lembro-me da poesia de Fernando Pessoa, Liberdade: “que bom ter um dever e não fazer”: uma transgressão – e transgressores não eram felizes… mas, escreviam bem!
Será que debaixo da ponte é mesmo tão ruim como parece? Suponho que tudo depende do rio que passa embaixo dela – e como todos os daqui são sujos e mal cheirosos, então debaixo da ponte não vai dar…
De celular descarregado, decido pela casa de uma amiga que me recebe feliz, sem saber das tormentas internas, só pensando que sou uma boa surpresa. Que legal ser “uma surpresa inesperada”. Curto e fico por lá, jogando conversa fora…
E, nesse redemoinho de ideias, quando volto a ser eu, noto que evito me olhar nos olhos, me olhar no espelho, não me reconheço, sou outra pessoa: essa descabelada cheia de vontades e certezas não sou eu.
E descubro que posso pentear os cabelos mas não ordenar minhas ideias, minhas sandices, meus grilos: são muitos os meus grilos, mas eu bem que preferia que fossem… joaninhas!

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