Assertivas presidenciais ou “Fazendo de conta que nada”


Ouço, meio desligada, sobre um pai que estuprava sua própria filha desde que ela tinha 4 anos. Preso em flagrante, o delegado se depara com o terror da menina temendo que ele se suicidasse, pois fora sempre com essa ameaça que ele a tinha mantido calada. Que pena que sujeitos como esse não se suicidem de fato: são covardes demais para tanto. Devem pensar, “imagine, se suicidar por tão pouco”…
De algum modo esse horror e mais as colocações discretas e ponderadas de uma jornalista séria e respeitada como é o caso de Miriam Leitão – alvo recente de grossuras semelhantes de sua Excelência, sem jamais ter “passado recibo” – hoje, em seu resumo da semana, às 9 horas da manhã, comentando sobre as “assertivas presidenciais” em relação à Michelle Bachelet, Brigitte Macron, Angela Merkel  e percebi que não dá mais para “fazer de conta que nada”, “que não é comigo” e que quem votou nesse presidente (e não é meu caso) sabia que esse era seu “estilo”: “bateu, levou”.
A verdade é que todos esses fatos reunidos são abjetos, revoltantes e demonstram que, a partir do fato de essa postura se mostrar contagiosa – haja vista a piadinha do Ministro Paulo Guedes em sua palestra de ontem – podemos esperar, a qualquer momento, que “nosso Presidente eleito”, louve o aumento de feminicídios: afinal, alguma razão “eles” devem ter tido para matá-las, alguma elas aprontaram: afinal, “são mulheres”!
O que mais me enraivece é que não sou e sempre tive horror às “posturas feministas”: jamais vi as mulheres como coitadinhas, fracas e desassistidas, dependentes. Por exemplo, aquela história da hashtag “me too” (eu também) só me fez ficar farta de tantas “bobocas” que só resolveram se revoltar e dar um “basta” 20 anos depois dos fatos acontecidos e na esteira de outras “corajosas”.  Sempre haverá quem me diga que “na época, ninguém teria dado a mínima atenção” – e não serei eu a entrar nessa discussão. Mas, diante desses nada edificantes exemplos vindos “do alto”, do presidente deste país – que paradoxo, não poderia ser de “mais baixo” – sinto que vou ter que repensar meu posicionamento e, possivelmente, até “fincar minha bandeira” nesse que jamais vi como meu terreno…
Como sabiamente colocou Fernando Gabeira em sua crônica neste jornal mesmo, Há conservadores que dizem que a política é a arte de confortar as pessoas diante da desolação do real. O estilo de Trump e de Bolsonaro vai na direção oposta: tornar o real insuportável.” E até mesmo quem gostaria de pensar que, como dizia Ibrahim Sued em priscas eras: “Os cães ladram e a caravana passa”, sente que já não dá para continuar “fazendo de conta que nada”: tristemente, esse é o meu caso…
 

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