Guedes está para a economia como Pazuello esteve para a pandemia

Para enfrentar a Covid-19, Bolsonaro gastou menos do que poderia. Para reeleger-se, gastará mais do que deveria ser possível

Paulo Guedes – Orlando Brito

Na última segunda-feira à noite, Paulo Guedes saiu de uma reunião no Palácio do Planalto ainda com a esperança de limitar os danos à política econômica que sempre defendeu desde antes de se tornar ministro e que foi uma das razões para que Jair Bolsonaro se elegesse presidente da República em 2018.

Bolsonaro e ministros alinhados com o Centrão haviam tentado empurrar-lhe goela abaixo a proposta de furar o teto de gastos para contemplar os brasileiros mais pobres com um auxílio emergencial de 400 reais e, assim, reverter uma possível derrota humilhante do governo na eleição do ano que vem.

Guedes imaginou que seria possível resistir à proposta que abre margem de ao menos R$ 83 bilhões no Orçamento não só para bancar o programa que substituirá o Bolsa Escola como para aumentar o valor das emendas parlamentares destinadas à construção de obras em redutos eleitorais de aliados do governo.

Enganou-se. O mercado reagiu provocando a queda do preço das ações na Bolsa de Valores, o dólar subiu aproximando-se da casa dos 6 reais e os mais importantes auxiliares de Guedes ameaçaram pedir demissão. Diante do estupro que lhe pareceu inevitável, que fez o ministro? Simplesmente jogou a toalha.

Para não perder o emprego que a essa altura só satisfaz a sua vaidade, passou a falar em governo “reformista e popular, não populista”, e em licença para gastar. A cúpula do ministério pediu demissão. As quatro baixas somaram-se às oito registradas desde que Guedes tomou posse na condição de superministro.

Eram dois os superministros de Bolsonaro no início do governo – ele e Sergio Moro. Moro saiu ao descobrir que o combate à corrupção não passou de lorota contada por Bolsonaro para se eleger. Guedes preferiu acreditar que Bolsonaro se converteria ao liberalismo, e ficou. Será o último a apagar a luz antes de sair.

A lei do teto de gastos foi um freio de arrumação em um país onde os restos a pagar a cada fim de ano funcionavam como uma espécie de orçamento paralelo. A pandemia, no ano passado, justificou sua suspensão temporária. Tratou-se de um crime cometido em legítima defesa. Agora, de um crime por motivos fúteis.

Não dá para comparar o Bolsa Família com o Auxílio Brasil. O primeiro foi um programa de distribuição de renda aclamado em todas as partes do mundo. Serviu para manter o PT 13 anos e pouco no poder? Serviu, sim, mas e daí? O Auxílio Brasil foi concebido para durar só até o fim de 2022, ano eleitoral.

Bolsonaro gastou menos do que poderia ter gastado para enfrentar a pandemia. Como sua preocupação era salvar a economia, e não vidas, ele pôs no Ministério da Saúde o general Eduardo Pazuello, que sequer conhecia o SUS, mas que obedeceria às suas ordens sem discuti-las porque era disciplinado e tinha juízo.

Pazuello foi o desastre que se viu. Guedes revela-se um novo Pazuello, só que menos bronco. Os dois igualmente encantados com as miçangas do poder.

Fonte: Blog do Noblat

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