24 de julho de 2024
Colunistas Ricardo Noblat

Dúvidas impedem Sofia de dormir

Diário de Avô – Uma celebração à vida

Sono: Dormir mais pode ser uma das formas de jovens evitarem o surgimento de diabetes no futuro
Thinkstock/VEJA/VEJA

Passava das duas horas da madrugada quando Sofia acordou, sacudiu o marido e foi logo perguntando:
– Você não acha arriscado Luana dormir sozinha no quarto dela?
– Mas não foi você que preferiu assim? – devolveu Vitor.
– Eu sei, Vitor. Eu sei o que estou fazendo.
– Se sabe por que me acordou pra perguntar isso?
– É que me ocorreram algumas dúvidas…
– Você não diz que a criança deve dormir sozinha no quarto dela? – insistiu Vitor.
– Deve, sim. Os especialistas recomendam. Está nos livros, mas…
– Mas o quê?
– Bem, e se ela, de noite, puxar a mantinha? E se a manta cobrir o rostinho dela?
– Mas bebê tem força pra puxar a manta?
– Acho que não, Vitor, mas não sei. O que você acha?
– Sei lá. Mãe é que entende dessas coisas…
– Eu, sempre eu, é tudo eu…
Vitor conhece Anita, que pariu Rebeca, que é mãe de Sofia, que aguarda Luana. Aprendeu o repertório de truques das mulheres da família. Se tivesse respondido ao comentário “Eu, sempre eu, é tudo eu”, dizendo que divide com Sofia todas as tarefas, ela tentaria provar justamente o contrário. E a discussão se estenderia por muito tempo. Calou-se então.
– Eu acho que ela não terá força pra puxar a manta. Bebê não tem força pra essas coisas – comentou Sofia.
– E se Luana se mexer e o travesseiro ficar sobre o rosto dela?
– Você está pensando o que de mim, Vitor? Que sou uma mãe irresponsável? O travesseiro dela é especial, especial. Foi feito para evitar o risco do bebê se sufocar.
– Mas se ela der uma golfada, se engasgar e a gente estiver dormindo?
Sofia não soube responder.
– Você não acha melhor, Sofia, que o berço dela fique em nosso quarto?
– Nem pensar. Ela deve ter seu próprio espaço e respeitar o espaço dos pais. Não esqueça que sou psicóloga.
– Então talvez seja melhor que eu vá dormir ao lado do berço dela – sugeriu Vitor.
– A mãe aqui sou eu. Eu. Se alguém tiver que dormir ao lado do berço de Luana, serei eu.
Vitor virou-se para o lado e tentou pegar novamente no sono.
Sofia não conseguiu pregar o olho até o dia amanhecer. Tomava café na sala quando Vitor apareceu ainda de pijama e a beijou no rosto.
– Não tem problema…
– Não tem problema o quê? – espantou-se Vitor.
– A golfada…
– Que golfada?
– A golfada de Luana.
– Mas Luana ainda nem nasceu e já golfou?
– Não me trate como idiota. Só quem me trata como idiota é meu pai lá no blog dele…
Vitor calou-se para ouvir.
– Você lembra que de madrugada conversamos sobre os perigos de Luana dormir sozinha?
– Vagamente – admitiu Vitor.
– E que você perguntou se ela não poderia morrer se engolisse uma golfada?
– Morrer? Morrer? Não falei em morrer. Falei que ela poderia se engasgar e…
– E o quê? E o quê? É a mesma coisa, Vitor. Se ela se engasgar poderá morrer por asfixia.
– Sim, e daí?
– Daí que não há perigo de Luana morrer por causa de uma golfada. Você não sabe que depois de dar de mamar a gente põe o bebê no ombro e fica um tempão assim até ele arrotar?
– É verdade… Tinha esquecido.
– É justamente para que ele não vomite.
– Ah, então o problema está resolvido. Ainda bem.
Sofia mergulhou o rosto na xícara de café com leite e permaneceu em silêncio durante alguns minutos. Parecia meditar. Até que, de repente, como se tivesse levado um choque, estremeceu, levantou-se agitada e perguntou em voz alta:
– Vitor, e quando o bebê não arrota? E quando a gente não sabe se ele arrotou? O que se faz?
Àquela altura, Vitor estava no banho. Não ouviu a pergunta.
(Com a palavra o pediatra norte-americano T. Berry Brazelton, autor do livro “Momentos decisivos do desenvolvimento infantil”, publicado pela editora Martins Fontes: “Se você tentou de cinco a dez minutos e não conseguiu fazer com que [o bebê] arrotasse, deixe-o com as costas apoiadas num ângulo de 30 graus; é possível então que ele se encarregue de arrotar”.)

Ricardo Noblat

Jornalista, atualmente colunista de O Globo e do Estadão.

Jornalista, atualmente colunista de O Globo e do Estadão.

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