Dúvidas impedem Sofia de dormir

Diário de Avô – Uma celebração à vida

Sono: Dormir mais pode ser uma das formas de jovens evitarem o surgimento de diabetes no futuro
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Passava das duas horas da madrugada quando Sofia acordou, sacudiu o marido e foi logo perguntando:

– Você não acha arriscado Luana dormir sozinha no quarto dela?

– Mas não foi você que preferiu assim? – devolveu Vitor.

– Eu sei, Vitor. Eu sei o que estou fazendo.

– Se sabe por que me acordou pra perguntar isso?

– É que me ocorreram algumas dúvidas…

– Você não diz que a criança deve dormir sozinha no quarto dela? – insistiu Vitor.

– Deve, sim. Os especialistas recomendam. Está nos livros, mas…

– Mas o quê?

– Bem, e se ela, de noite, puxar a mantinha? E se a manta cobrir o rostinho dela?

– Mas bebê tem força pra puxar a manta?

– Acho que não, Vitor, mas não sei. O que você acha?

– Sei lá. Mãe é que entende dessas coisas…

– Eu, sempre eu, é tudo eu…

Vitor conhece Anita, que pariu Rebeca, que é mãe de Sofia, que aguarda Luana. Aprendeu o repertório de truques das mulheres da família. Se tivesse respondido ao comentário “Eu, sempre eu, é tudo eu”, dizendo que divide com Sofia todas as tarefas, ela tentaria provar justamente o contrário. E a discussão se estenderia por muito tempo. Calou-se então.

– Eu acho que ela não terá força pra puxar a manta. Bebê não tem força pra essas coisas – comentou Sofia.

– E se Luana se mexer e o travesseiro ficar sobre o rosto dela?

– Você está pensando o que de mim, Vitor? Que sou uma mãe irresponsável? O travesseiro dela é especial, especial. Foi feito para evitar o risco do bebê se sufocar.

– Mas se ela der uma golfada, se engasgar e a gente estiver dormindo?

Sofia não soube responder.

– Você não acha melhor, Sofia, que o berço dela fique em nosso quarto?

– Nem pensar. Ela deve ter seu próprio espaço e respeitar o espaço dos pais. Não esqueça que sou psicóloga.

– Então talvez seja melhor que eu vá dormir ao lado do berço dela – sugeriu Vitor.

– A mãe aqui sou eu. Eu. Se alguém tiver que dormir ao lado do berço de Luana, serei eu.

Vitor virou-se para o lado e tentou pegar novamente no sono.

Sofia não conseguiu pregar o olho até o dia amanhecer. Tomava café na sala quando Vitor apareceu ainda de pijama e a beijou no rosto.

– Não tem problema…

– Não tem problema o quê? – espantou-se Vitor.

– A golfada…

– Que golfada?

– A golfada de Luana.

– Mas Luana ainda nem nasceu e já golfou?

– Não me trate como idiota. Só quem me trata como idiota é meu pai lá no blog dele…

Vitor calou-se para ouvir.

– Você lembra que de madrugada conversamos sobre os perigos de Luana dormir sozinha?

– Vagamente – admitiu Vitor.

– E que você perguntou se ela não poderia morrer se engolisse uma golfada?

– Morrer? Morrer? Não falei em morrer. Falei que ela poderia se engasgar e…

– E o quê? E o quê? É a mesma coisa, Vitor. Se ela se engasgar poderá morrer por asfixia.

– Sim, e daí?

– Daí que não há perigo de Luana morrer por causa de uma golfada. Você não sabe que depois de dar de mamar a gente põe o bebê no ombro e fica um tempão assim até ele arrotar?

– É verdade… Tinha esquecido.

– É justamente para que ele não vomite.

– Ah, então o problema está resolvido. Ainda bem.

Sofia mergulhou o rosto na xícara de café com leite e permaneceu em silêncio durante alguns minutos. Parecia meditar. Até que, de repente, como se tivesse levado um choque, estremeceu, levantou-se agitada e perguntou em voz alta:

– Vitor, e quando o bebê não arrota? E quando a gente não sabe se ele arrotou? O que se faz?

Àquela altura, Vitor estava no banho. Não ouviu a pergunta.

(Com a palavra o pediatra norte-americano T. Berry Brazelton, autor do livro “Momentos decisivos do desenvolvimento infantil”, publicado pela editora Martins Fontes: “Se você tentou de cinco a dez minutos e não conseguiu fazer com que [o bebê] arrotasse, deixe-o com as costas apoiadas num ângulo de 30 graus; é possível então que ele se encarregue de arrotar”.)

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