2 de julho de 2022
Colunistas Ricardo Noblat

Com medo de perdê-los, Bolsonaro volta a falar para seus eleitores

Em um único dia, o presidente da República disse tudo isso e mais um pouco

Sobre Miguel Reale Júnior, ex-ministro da Justiça, que apresentou o 140º pedido de abertura de impeachment contra ele: “Está lá o Miguel, todo cara de embalsamado. Parece um Tutancâmon”.

Sobre o passaporte vacinal: “Como posso aceitar o cartão vacinal se eu não tomei a vacina? É um direito meu não tomar, como é direito de qualquer um”.

Sobre João Doria, governador de São Paulo, que disse que no seu Estado só entrará vacinado: “Teu Estado é o cacete, porra. E nós temos que reagir. E reagir como? Protestando contra isso”.

Sobre os focos de incêndio que devastam a floresta amazônica e prejudicam a imagem do Brasil no exterior: “Podem ser fogueiras de São João, podem ser”.

Sobre o ex-juiz Sérgio Moro que lhe subtrai votos para presidente no ano que vem: “Mesmo com toda a liberdade, nunca mostrou serviço, a não ser desde o começo para fazer intrigas”.

Sobre a decisão de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo, de prender o blogueiro Allan dos Santos: “Ninguém pode interpretar a Constituição da maneira que bem entender”.

Sobre a pressão dos seus próprios seguidores para que defenda o deputado Daniel Silveira: “Doeu no meu coração ver um colega preso. O que fazer? Queriam que eu tomasse medidas extremas?”

E sobre ele mesmo: “Será que vão querer bloquear minhas mídias sociais? A mídia social que mais interage no mundo? Vão querer quebrar uma perna minha? Isso é democracia? Não é”.

Não faltaram elogios à cloroquina. Em cerimônia no Palácio do Planalto, depois de falar da droga, ordenou: “Quem aí já tomou cloroquina levante a mão”. Obedientes, generais, ministros e funcionários levantaram. Manda quem pode, obedece quem não quer perder o emprego. A vida não está fácil para ninguém.

Um ex-juiz incomoda muita gente. É o caso de Moro, vice-campeão em rejeição só atrás de Bolsonaro. Com um mês como candidato a presidente pelo PODEMOS, ele está em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto, superando Ciro Gomes (PDT). Moro corre na mesma raia de Bolsonaro e de Ciro.

Por isso, Bolsonaro começou a despir a fantasia de Jairzinho paz e amor, invenção da época em que Moro não era candidato. E Ciro, que antes apostava em ser a alternativa a Lula e a Bolsonaro, agora se oferece como alternativa a Lula, Bolsonaro e Moro. Corre o risco de ser abandonado pelo PDT se até fevereiro não crescer.

Moro sonha com um grande escândalo de corrupção que envolva ao mesmo tempo o governo e o Congresso onde tem poucos amigos. Algo do tipo orçamento secreto usado para forrar os bolsos de deputados, senadores e, lá na ponta, prefeitos. Só assim seu discurso contra a corrupção voltaria a ganhar atualidade.

Bolsonaro quer deter a sangria entre os que o apoiam, e sonha com o voto dos nordestinos comprado via o Auxílio Brasil. Respeita Januário, presidente! A história mostra que os nordestinos são um povo politizado. Sabem distinguir esmola dada em ano eleitoral da ajuda sincera e permanente para vencer a pobreza.

Aceitam a esmola porque precisam, mas na hora de votar não se comportam como devedores e dão o troco.

Fonte: Blog do Noblat

Jornalista, atualmente colunista de O Globo e do Estadão.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.