2 de julho de 2022
Colunistas Ricardo Noblat

Bolsonaro está sendo bem-sucedido na tarefa a que se propôs. Bravo!

Como isso foi possível? Afinal, quem somos?

Jair Bolsonaro e deputado Éder Mauro Reprodução – redes sociais

É muito desagradável quando os fatos contrariam o que antes fora imaginado. A Polícia Federal, há 72 horas, anunciou que elucidara o assassinato do indigenista brasileiro Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips. Os dois teriam sido executados pelos irmãos Amarildo da Costa de Oliveira e Oseney da Costa de Oliveira, réus confessos. O crime não teve mandante.

Então, um terceiro homem entregou-se e disse que também participou do crime. E, agora, o Comitê de Crise formado para investigar as mortes identificou outras cinco pessoas que teriam participado da ocultação dos corpos. A confirmar as suspeitas do comitê, somadas às confissões já obtidas, pelos menos 8 pessoas têm a ver diretamente com o que aconteceu a Bruno e a Dom.

Naturalmente, isso reforça a tese de que o crime teve mandantes, um ou mais de um. Não é razoável acreditar que oito pessoas, de repente, sem mais nem menos, ou só porque uma delas tinha motivo, resolveram matar um agente da Fundação Nacional do Índio e um jornalista estrangeiro conhecido por aquelas bandas do mundo. Um mutirão espontâneo, digamos. Não dá para acreditar.

A Amazônia, hoje, é terra de ninguém. Abandonada pelo governo Bolsonaro que estimula sua destruição com a conivência dos militares que sempre disseram defendê-la, a Amazônia profunda é dos desmatadores, contrabandistas, garimpeiros e pescadores ilegais que cobiçam e exploram em proveito próprio suas riquezas. Para eles, Bruno e Phillips eram um incômodo.

Bolsonaro está sendo bem-sucedido na tarefa de levar o país a andar para trás. Voltou ao passado na economia, no bem-estar da população, na educação e no meio ambiente, como mostra uma reportagem exemplar da jornalista Cassia Almeida em O Globo, neste domingo. É de dar dor. A fome atinge 33,1 milhões de brasileiros, 14 milhões a mais em pouco mais de um ano.

A produção de bens de consumo duráveis (carros e eletrodomésticos) está igual à de 18 anos atrás. A economista Silvia Matos, coordenadora técnica do Boletim Macro do Ibre/FGV, calculou que somente em 2029 vamos voltar ao maior valor real do PIB per capita, de R$ 44 mil, atingido em 2013, considerando a média de crescimento dos últimos anos do país, em torno de 1,5%.

Na educação, as crianças perderam mais. A evasão escolar na faixa de 5 a 9 anos está igual à de 2012, de acordo com estudo do economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social. O país saiu de uma área desmatada de 4.571 quilômetros quadrados em 2012 para 13.235 quilômetros quadrados em 2021. Somente em 2003, o Brasil conviveu com um índice de inflação tão alto como agora.

O que mais espanta é que tendo feito o pior governo da história, Bolsonaro chegue ao fim do mandato ainda com a esperança de se reeleger.

Como é possível? Afinal, quem somos para que seja assim?

Fonte: Blog do Noblat

Jornalista, atualmente colunista de O Globo e do Estadão.

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