
Nesse final de semana, como habitualmente faço, assistia a um filme no Canal Prime Vídeo (Sou cinéfilo rsrsrs)), e uma frase dita por um dos protagonistas da série “Covil de ladrões” me chamou a atenção: “Os tigres nunca mudam suas listras”, então resolvi fazer esse editorial de segunda-feira.
Dizem que, na natureza, existem algumas verdades absolutas. Uma delas é que tigres têm listras — e essas listras são permanentes. Não importa se o tigre está numa floresta na Índia ou num zoológico em Brasília, quero dizer, no cerrado brasileiro: ele continua com as mesmas marcas. Um símbolo eterno da sua identidade.
E aí, como num eco cômico e trágico da natureza, olhamos para nossos políticos e… surpresa! As listras também continuam as mesmas. Não importa o partido, a época, a promessa de renovação ou a maquiagem da propaganda eleitoral: a essência é a mesma. O apetite também.
O mais engraçado é que eles tentam. Meu Deus, como tentam!
Durante as campanhas, os políticos parecem atores de novela das seis: choram em palanque, abraçam crianças suadas, acariciam cachorros abandonados e fazem churrasco com pão de alho queimado no subúrbio. Ali, naquele teatro digno de Oscar, eles juram, entre lágrimas sinceramente treinadas, que “desta vez é diferente”. Que agora a listra mudou. Que agora o tigre virou… um coelhinho fofo.
Mas, caro amigos, assim como você não vê um tigre pastando capim numa fazenda orgânica, você também não verá políticos abandonando seus velhos hábitos. Assim que a última urna é fechada e o último santinho é varrido da rua, o show acaba. E o tigre volta a rugir.
E não é qualquer rugido. É um rugido cheio de sede: sede de verbas, sede de cargos, sede de privilégios, sede de poder. Não importa quantas “novas políticas” inventem — é sempre a velha fome, disfarçada com um crachá novo e uma gravata mais moderna.
Mas sejamos justos: alguns políticos realmente mudam… mudam de partido! Como tigres que trocam de jaula para ver se a comida é melhor. “Fidelidade partidária” virou piada de salão, dessas que a gente conta entre um escândalo e outro. Mudam de cor, de discurso, até de sotaque se preciso for — mas as listras, essas estão sempre lá: corrupção, promessas quebradas, autopromoção e, claro, aquela eterna “inocência” quando pegos com a boca no pote de mel.
O mais fascinante é que nós, eleitores, também somos personagens dessa tragicomédia. Somos aquele público que volta ao circo achando que, desta vez, o tigre vai fazer um truque novo. E não faz. No máximo, pula uma argola mais dourada. E nós aplaudimos, surpresos, como se fosse a oitava maravilha do mundo.
Depois, quando o tigre avança, quando mostra as garras, fazemos cara de espanto. “Como pôde?”, nos perguntamos, com a memória curta de quem esquece que tigres, oras, têm garras. E políticos, seus correspondentes de gravata, também.
Se fôssemos mais atentos, entenderíamos que a evolução política não é uma questão de trocar de personagens, mas de mudar o habitat. Tigres não deixam de ser predadores, mas se a floresta for bem vigiada, se houver cerca elétrica, armadilhas e, principalmente, vigilância constante, eles pensam duas vezes antes de atacar. O problema é que nossa “floresta democrática” parece mais um pasto abandonado. Sem fiscalização, sem punição. Sem consequências.
E é aí que as listras brilham com mais orgulho. O cinismo político brasileiro atingiu tal nível que hoje se discute com naturalidade, em público, questões que antes causariam vergonha: emendas secretas, privilégios acima da lei, nepotismo descarado. Alguns ainda tentam disfarçar, botam uma listra colorida, dizem que “é pela governabilidade”, que “é pelo bem do povo”. O povo, aliás, virou desculpa para tudo. É como se cada golpe fosse, ironicamente, um ato de amor.
Mas, convenhamos: político alegar que rouba “pelo bem do povo” é como o tigre dizer que devora um cervo “em nome da preservação ambiental”. É a natureza, explicam. Só esqueceram de nos avisar que, nessa cadeia alimentar, nós somos o cervo.
Agora, não sejamos totalmente pessimistas. Existe, sim, algo que muda: o cinismo vai ficando mais sofisticado. Antes, escondiam as listras; agora, exibem com orgulho. Antigamente, a corrupção era negada até a morte; hoje, é apenas um detalhe técnico. Pega-se um político no flagra, e ele sorri para as câmeras, dizendo que “não há provas suficientes” — mesmo que esteja segurando o saco de dinheiro, no meio do cofre aberto, com a senha do banco tatuada no antebraço.
O verdadeiro talento político atual é esse: fazer com que o óbvio pareça discutível. A arte de transformar escândalos em debates. A arte de fazer o povo acreditar que, quem sabe, aquela listra que você está vendo… é só uma sombra mal interpretada.
E assim seguimos, geração após geração, reinventando a mesma tragédia. A cada eleição, prometemos que seremos mais atentos. Juramos que desta vez não seremos enganados. Mas, diante do rugido de um tigre vestido de cordeiro, acabamos sempre fascinados — e devorados logo depois.
Por fim, tigres não mudam suas listras. Políticos também não. A diferença é que, enquanto os tigres fazem isso por instinto, os políticos fazem por escolha.
E nós, meros espectadores dessa selva sem lei, continuamos achando que, na próxima vez, talvez, só talvez… o tigre venha de bolinhas.
E pra finalizar: Você político, que se sentiu ofendido com esse meu artigo opinativo, sinto muito, escolheu a profissão errada, mas ainda dá tempo de mudar.

