As serpentes e os ovos

Imagem: Google Imagens – Ovo.blog.br (meramente ilustrativa)

Em 1976, morando em Paris, eu e muitos amigos éramos embalados pela utopia socialista.

Nesse ano, o admirável Ingmar Bergman, no auge do reconhecimento internacional por sua belíssima obra cinematográfica foi acusado pelo Fisco da exemplar sociedade socialista sueca,de sonegar impostos.

Lembro até hoje o impacto da noticia em nós.

Sua prisão, por dois policiais nas dependências do Teatro Real de Estocolmo, enquanto Bergman ensaiava o elenco de ‘A Dança da Morte’, de Auguste Strindberg, foi uma ducha fria no calor das emoções ideológicas.

O grande mestre do cinema era acusado de evasão fiscal, cometida por sua produtora Personafilm, sediada no ‘discreto e elegante’ paraíso fiscal… a Suíça.

Mais tarde, na sua autobiografia, ele revelou que esse foi o pesadelo mais terrível da sua vida. Mais assustador e angustiante do que os pesadelos dos seus atormentados personagens dramáticos: “Minha mão tremia, eu mal podia respirar(…) foi uma catástrofe, a tragédia de minha vida”.

Sua prisão foi uma cena que repercutiu em todo mundo. Os jornais europeus, sobretudo os suíços, atacaram-no impiedosamente.

Quando Bergman despistou a vigilância da polícia e fugiu para a Alemanha, a sequência de eventos foi de um sensacionalismo inesquecível.

Sua redenção só ocorreu em 1981, após um ‘ajuste’ fiscal que o permitiu retornar à Suécia, onde dirigiu o belo filme ‘Fanny e Alexandre’. Mas, o retorno definitivo a sua terra natal só aconteceu em 1988.

Por que essa introdução?

Há muitos motivos que me levam a rememorar esses episódios.

O primeiro é de caráter particular e pessoal.

Minhas convicções não são tão minhas, como pensava na juventude.

Em 1976, quando Bergman foi em cana, minha roda de amigos ‘socialistas’ entrou em parafuso.

Destaco nesse imbróglio a posição da minha amiga CN, socialista de raiz e amante da obra de Bergman, que mergulhou, em solidariedade com o cineasta, em depressão.

Era inconcebível para ela que um artista tão poderoso pudesse ‘trair’ os ideais socialistas.

Em uma das nossas conversas acho que despertei nela o sentido de realidade quando perguntei:

– “O que é mais grave; trair os ideais socialistas ou as mulheres que amamos|”?(…) Bergman fez as duas coisas(…) você pode escolher a que ache mais grave(…). Quantos de nós cometemos as mesmas traições?

Na sua ingênua confissão posterior, Bergman escreveu: “Em toda essa história, fui culpado de apenas uma falta, uma falta grave, no entanto: assinei papéis que não havia lido”.

Nesse trecho não senti nenhuma empatia com o artista que admiro profundamente. Eu preferia que ele adotasse uma confissão mais rebelde, um tanto anarquista, para confrontar as virtudes de uma sociedade ‘modelar’.

Creio que os meus comentários sobre as atitudes humanas do ‘grande’ Bergman, nela refletiu como epifania. Ela se libertou da ilusão do ‘novo homem’ – um ser socialista tão perfeito, incapaz de cometer um deslize existencial ou uma sonegação fiscal que afrontasse o bem estar social.

O segundo ponto é de caráter ético/político/local.

Os homens públicos brasileiros, bem como algumas celebridades das artes, adeptos – em tese – dos ideais socialistas, quando são pegos fraudando o fisco ou simplesmente se beneficiando monetariamente de fundos públicos por adesão a governos hipoteticamente de esquerda, fazem vista grossa sobre os crimes dos seus lideres e ‘guerreiros’ políticos que roubaram descaradamente o dinheiro do povo brasileiro.

Juntos e misturados, desconhecem -de fato, desprezam – a ética.

Por isso não fazem ‘mea culpa’ porque a culpa eles dirigem ao povo que não sabe votar.

Suas ‘personas’ são cultuadas pela grande imprensa e suas convicções e virtudes são produções ficcionais exibidas diariamente e com orgulho pelos funcionários dos veículos da grande imprensa.

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