20 de maio de 2024
Yvonne Dimanche

Ontem

Queridos leitores, ontem mesmo eu era uma menina brincando na minha rua, tola, muito tola. Um tempinho depois já era uma adolescente em crise, porque nasceu uma espinha na ponta do meu nariz cheia de pus. Eu parecia a bruxa Meméia da revista da Luluzinha. Por essa razão não fui a uma festa em que todos os jovens foram. O tempo passou mais um pouco e um tantinho de tempo de nada, eu meu casei. Foi praticamente ontem. Praticamente não, foi ontem mesmo.

Ontem mesmo me aposentei e logo depois deixei de menstruar. E eis que descubro que a minha pele tão sedosa e que por muito tempo tinha cheirinho de neném, de repente ficou um tanto esquisita, sem cheiro algum. Aquele rosto que por tanto tempo tive orgulho por ter a sorte de ter uma família paterna que custa a envelhecer, de repente ficou um tanto estranho. Felizmente não tenho ruga alguma. O Valter Bernat me conhece e sabe que não estou com conversa fiada. Só que não tenho rugas, mas tenho o semblante cansado sem estar cansada. Eu sou uma senhora de mais de 60 anos, não sou mais gatinha e gorda.

Ainda assim, com toda essa minha “lamúria”, nada disso me incomoda, porque lembro da minha mãe ao dizer que a única possibilidade de não ficar velho era morrer jovem. Isso eu não quero de jeito de nenhum na minha vida. Quero ir até o fim.

No entanto, algumas coisas me incomodam. Uma delas é ler no jornal O Globo a coluna “Há 50 anos” que mostra o que foi notícia cinquenta anos antes e eu me lembro de alguma coisa, como por exemplo, a primeira Miss mulata do Rio de Janeiro. Há 50 anos também os Beatles começaram a fazer sucesso no Brasil. Caramba!! Para mim, tudo isso foi ontem, mas já se passou todo esse tempo.

E aquela turma antes da minha geração está morrendo. Li ontem que o ator Paulo José tem 77 anos. Caramba! Ontem mesmo ele era um gato. Nunca tive crise alguma por conta da idade, mas agora eu vejo que estou me aproximando do final da minha vida. Não queridos leitores, não quero parecer dramática, porque me resta um bom tempo, mas ontem mesmo (ontem, que palavra chata e repetitiva) eu subia a estrada Rio-Petrópolis com amigos de motos e descíamos à toda velocidade. Morte? Nem pensar. Eu era imortal, como todo jovem.

Enfim queridos, a minha alma é super jovem. Ainda tenho a capacidade de me emocionar ao ouvir a mais tola das músicas dos Beatles ou do Roberto Carlos, mas o corpo não está mais com essa bola toda e isso não depende apenas de alimentação e coisas e tal. É apenas o tempo que passa.

Um lindo final de semana para todos e até o próximo Boletim.

O Boletim

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