3 de março de 2024
Yvonne Dimanche

Generosidade


Queridos leitores, ando meio saudosa. Mais saudosa do que já sou. Quando os tempos são meio amargos, eu fujo um pouco da triste realidade e me lembro de histórias legais que fazem parte da minha vida. Pois bem, antes de ontem eu saí com o meu marido para comemorar a solução de um problema que durou oito anos. Fomos a um barzinho para tomar umas cervejinhas.
Não queríamos comer nada, mas ao ver a meia dúzia de gatos pingados, pedimos cada um uma casquinha de siri, só para aumentar a conta um pouquinho para a gorjeta da Renatinha, nossa garçonete fofa ganhar um tiquinho mais. Eis que chega um “dimenor” e nos pede uma casquinha, quase se debruçando sobre nós. Disse que não (o tamanho da casquinha é ridículo e não mata a fome de ninguém). No entanto, disse que teria o prazer de lhe dar um super sanduíche. Ele recusou e ainda disse que nós ricos somos uns merdas e temos mais é que nos danar. Bom, ele é que se danou, infelizmente.
Por conta disso, me lembrei de uma fase da minha vida que gostaria de compartilhar com vocês. O ano de 1973 foi terrível para a minha família. Eu, que fui uma menina Zona Sul do Rio, de repente me vi às voltas com total falta de dinheiro. Bom, não darei detalhes. Não por vergonha, porque eu tenho orgulho da minha história de vida, mas nem todos os papos interessam para os outros.
Pois bem, eu que sou ALUCINADA POR TODO E QUALQUER DERIVADO DE LEITE, fiquei tão dura que era impossível para a minha família comprar certas coisas, como por exemplo um queijo. Carnes, cereais, frutas, legumes e verduras tínhamos na nossa casa, menos as guloseimas.
Para piorar, almoçava às 11.30 e só jantava quase às 11 horas da noite, pois eu trabalhava e estudava à noite. Nessas doze horas, eu só comia um pão francês com margarina, meio duro e bem sem graça. Eu tinha 19 anos e nessa fase a gente come muito.
Até que a minha chefinha, Dona Marlene, deve ter sabido da minha situação e começou a me pedir para comprar lanches para ela no bar ao lado do meu local de trabalho. Nem era todo dia, mas ela dizia que estava morta de fome. Dava dinheiro para um lanche para ela e outro para mim. DUVIDO. Ela era elegantérrima, magra, chiquerésima e com certeza aquele lanche dela era para outra pessoa. Ela era muito parecida com a Lolita Rodrigues.
Demorou algum tempo para eu me dar conta de que ela estava me fazendo um carinho, uma caridade, só que eu não tive orgulho e aceitei. Não tinha fome, mas não podia macular um amor lindo dessa senhora por mim. Felizmente no ano seguinte a nossa situação mudou, mas eu aprendi com ela que a mais linda qualidade de um ser humano é a generosidade. Amar todo mundo ama, doar é para poucos.
Um lindo final de semana para todos e até o próximo Boletim.

O Boletim

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