23 de maio de 2022
Yvonne Dimanche

As velhinhas do meu prédio no Flamengo – Plano Cruzado


Quando o Sir Ney criou o plano cruzado, a minha filha tinha menos de um ano. Acostumados com fralda descartável, elas simplesmente sumiram do mercado e voltamos ao tempo da pedra lascada, com as de pano. Até aí tudo bem.
O problema foi a comida. Eu trabalhava das 9 até às 18.30h e não tinha condições de ficar em fila do supermercado e muito menos a babá/empregada Nádia, saudades. Então, o jeito foi apelar para a minha mãe que, quando encontrava carne e qualquer outro tipo de proteína, dava para a gente.
Fora isso, eu morava em um prédio abarrotado de pessoas idosas, só nós e outra família que tínhamos bebês. Então essas velhinhas, que eram muito saideiras e o supermercado era uma diversão para elas, compravam comida para a gente e deixavam a nota com a babá. No outro dia pagávamos. O lado positivo é que fomos obrigados a fazer comidas sem carne. Aprendemos muitas receitas que até hoje fazemos.
Certa vez, não sei quem nos disse que um determinado açougue tinha carne. Lá fomos nós, maridão e eu, para lá em um sábado. Não tinha praticamente nada. Compramos bacalhau, peru e camarão. Nunca mais esqueci disso. Foi tudo tão caro que pagamos parcelado, rsrsrs. Guardamos essas maravilhas no freezer como se fosse algo muito precioso para uma hora de desespero.
Por pior que esteja o mundo, sempre encontramos gente que nos estendem as mãos. Eu perguntei à Dona Eunice, uma das velhinhas queridas, o motivo de ela abrir mão de comer carne para dar para a gente. Ela respondeu:
“Eu já estou velha, não vou durar muito tempo, mas as suas crianças precisam muito mais de comida do que eu”
A vida é bela.

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