13 de junho de 2024
Yvonne Dimanche

As velhinhas da Rua Machado de Assis


Queridos leitores, eu me mudei para essa rua em julho de 1985 e dois meses depois nasceu a minha filha. Morei por 20 anos em um prédio que foi inaugurado antes da Segunda Guerra começar e lá só tinha idosos aposentados. Resumindo a ópera: eu, maridão, filhote e a filhota recém-nascida éramos os bebezinhos do prédio.
Eis que voltei a trabalhar e contratei uma babá que já era amiga da família. As velhinhas preocupadas prestavam atenção em tudo que ela fazia. Eu até poderia ter ficado chateada com essa invasão de privacidade, mas filho é filho, e é melhor alguém intrometido do que um problemão mais tarde. Até que a Nádia, a babá, passou no teste das velhotas e deixou de ser vigiada.
Estava tudo caminhando às mil maravilhas, até que chegou o Plano Cruzado em 1986 e as comidas sumiram. Lembro bem que eu e meu marido saímos para comprar um singelo patinho em um açougue “elite branca” e saímos de lá com peru, camarão e bacalhau, comidas, digamos assim, chiques e caras, mas o que queríamos era a velha carne de vaca. Desculpem vegetarianos e veganos, mas a minha boca ansiava por um sangue escorrendo.
Bom, tudo era difícil principalmente leite, carne, ovos, fraldas descartáveis, enfim, era um inferno. Até que as velhinhas do meu prédio imaginando a minha situação e sabendo que eu saía de casa cedo e só voltava no fim do dia, como também a Nádia, nossa querida babá, não podia ficar horas intermináveis em um fila de supermercado com a filhota no carrinho, tomaram para si a incumbência de comprar as nossas comidas. Elas tinham tempo e era, digamos assim, uma diversão também. Várias são as amizades que fazemos em lugares assim.
E assim foi, as velhinhas machadianas, como também a minha linda mãe, compravam comida e nós as reembolsávamos. Um dia perguntei à Dona Irene, apaixonada que sempre foi pela minha filha, porque ela abria mão de comprar comida para ela e comprava pra gente (tinha uma quantidade que cada um podia comprar) e ela me respondeu que já estava velha e que morreria mais dia menos dia, já os nossos filhotes eram crianças.
Não foi só comida, outros ítens também sumiram. Comprei leite Ninho no mercado negro e paguei uma fortuna. Um latão enorme que era única e exclusivamente para a filhota, mas para mim o pior foi a falta de fraldas descartáveis. As que conseguíamos comprar eram só para passear. Tive de comprar de pano, já imaginaram depois de décadas de modernidade? Enfim, sem querer vivi um pesadelo de guerra (exagero meu…).
A única vantagem que houve nisso tudo é que finalmente nós aprendemos a apreciar legumes e verduras, sem aquela chata obrigação de “COME QUE É SAUDÁVEL” a que fomos acostumados na nossa infância. Começamos a fazer comidinhas gostosas e acabamos sobrevivendo depois sabe Deus como.
Um lindo final de semana para todos e até o próximo Boletim.
Coluna publicada em 04/07/2014

O Boletim

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