30 de maio de 2024
Uncategorized

Tão longe, tão perto

21009373_20130529174240833
Tão Longe, Tão Perto é o nome de um filme belíssimo, do início da década de 90, do alemão Wim Wenders. Mas pode ser também uma forma abreviada de descrever a relação entre as tragédias da violência brasileira e a onda de terrorismo que varre o mundo. Fiquemos com apenas dois paralelismos, selecionados apenas pela quase sincronicidade com que aconteceram, aqui e no exterior. O espancamento letal do vendedor ambulante no metrô de São Paulo e a carnificina no presídio em Manaus. Do lado de lá, o assassinato do embaixador russo na Turquia e o atentado na boate no Réveillon, também na Turquia. Esses dois episódios brasileiros servem, no mínimo, para repensar o clichê de que este é um país de paz. O conceito de paz é muito amplo e há uma distância imensa entre ele e a não ocorrência de episódios terroristas, diferentemente do que estamos vendo por aí, tanta gente boa orgulhando-se do fato do Brasil ser um país pacífico.
Pois vamos lá: no dia 19 de dezembro de 2016, o mundo ficou chocado ao assistir um policial turco assassinar a tiros diante das câmeras de TV o embaixador russo, enquanto esse se movia na sala de uma galeria de arte. A cena foi e é estarrecedora, num nível tal que soa incrível, no sentido de não crível, como se fosse uma performance que fizesse parte da exposição que o embaixador visitava. E o assassino tornava a coisa toda ainda mais fenomenológica ao gritar enquanto atirava naquele cenário artístico tão clean: “A gente morre em Aleppo, vocês morrem aqui. Não esqueçam de Aleppo” (cidade síria que se tornou o símbolo da tragédia dos refugiados).
TRAVESTIS
Menos de uma semana depois, na noite do dia de Natal, o Brasil entra em cena com sua versão adaptada de morte ao vivo, só que trocando as câmeras de TV do mundo pelas câmeras de segurança de uma estação de metrô, em São Paulo. Dois jovens ensandecidos de ódio e por motivos torpes espancam até a morte um senhor de meia idade, vendedor ambulante do metrô, Luís Carlos Ruas, 54 anos, que atraiu a ira dos valentões porque ousou defender duas travestis que estavam sendo perseguidas pelos dois. Importa mesmo se a razão que gestou a morte do embaixador russo na galeria foi a violência contra a população de Aleppo e se a que gerou a morte por dezenas de pisadas e pontapés na cabeça de “Seu” Ruas foi a vontade frustrada de dois brasileiros, desses que cruzam com a gente na rua todo dia, de agredir travestis? Violência e morte não é tudo uma coisa só? Portanto, tão longe, tão perto.
Ou há ódios que valem mais ou valem menos que outros quando exercitados? Aleppo e Ankara estão muito longe da estação de metrô D. Pedro II, em São Paulo. No entanto, basta ver as duas cenas para perceber como estão perto uma da outra. Já a incredulidade do público da galeria diante da morte do embaixador à queima roupa é mil vezes mais digna do que a indiferença das dezenas de pessoas que assistiram o espancamento fatal de Ruas e não moveram um músculo para impedir sua morte. E nesse ponto do texto muitos se perguntam: “E quem seria doido o suficiente para se meter?”. E a cada vez que alguém faz essa pergunta, o Brasil e o brasileiro vão revelando em que costados sua famosa cordialidade está indo dar. As fronteiras entre a covardia, a indiferença e a conivência com a violência estão tão borradas que nem dá mais para enxergá-las. E o que é pior: não dá mais para percebê-las e senti-las.
NARIZES
2017 mal começou e já inscreveu na história da violência do mundo um capítulo brasileiro estrondoso. O 1º dia útil do ano estreou com a imprensa nacional e internacional anunciando uma carnificina no maior presídio de Manaus (AM), em consequência de uma disputa de facções criminosas criadas em torno, claro, do tráfico de drogas. Quando um terrorista explode uma bomba num lugar qualquer, os brasileiros de bem rezam aos céus, pedem mais amor entre os homens e respiram aliviados, disfarçadamente, por não ser aqui, por ser lá loooonge e por, graças a Deus, sermos um povo de paz e não termos nada a ver com isso. Mas quando um massacre de presos acontece, um Carandiru 2, aí ninguém nem disfarça. Comemora mesmo, sobretudo em rede social. Para que preso vivo, né? Abortar não pode, mas matar depois de adulto é de boas. Ah, mas preso não é inocente, como se brasileiro tivesse interessado em discutir inocência.
Fica então uma dica para o começo do ano: facção criminosa, narco-estado (destino para o qual o Brasil avança a passos rápidos) e carnificina de presos só existem porque há um personagem fundamental nessa cena, e fora da cadeia. O consumidor. Portanto, arremedando Caetano, e mal, eu sei, em Haiti, a canção, antes de comemorar a chacina de Manaus, lembre-se, não faça de conta que o seu nariz empinado ou o de muita gente boa que você conhece não tem nada a ver com isso. E a fatura disso vai chegar para todos os brasileiros. É só uma questão de forma ou de tempo. A carnificina, o carro blindado e o fato de não se poder usar um celular na rua têm mais a ver com os narizes moralistas do que se pensa. Tão longe, tão perto. De você, de todo mundo.

O Boletim

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *