21 de maio de 2022
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Quem vai para o fim do mundo? Para lá, ninguém quer ir


As polêmicas, discussões e repercussões sobre a volta para Cuba dos mais de 8.000 médicos que hoje atuam no programa Mais Médicos têm de tudo: desinformação, radicalismos ideológicos dos dois lados, desonestidade intelectual e muita parcialidade não assumida, também nos dois fronts. Entretanto, alguns pontos são óbvios e só a partir deles é possível falar sobre o assunto.
Cuba é uma ditadura? É. Os médicos cubanos recebem apenas 25% do que o Governo brasileiro desembolsa por cada um deles (cerca de R$ 11.500 brutos)? Sim. Eles, assim como nenhum outro médico estrangeiro que participe do programa, precisaram ou precisam submeter-se à revalidação do diploma no Brasil? Não, não precisam. Mas, quanto a este ponto, vale reiterar: foi o Supremo Tribunal Federal (STF) que decidiu assim, por seis votos a dois.
Netflix
E vamos ao que de fato é o aspecto mais importante desse imbróglio da saúde pública nacional e cujo impacto na vida de milhões de pessoas é mais importante do que muito palpiteiro de rede social imagina. Hoje, em cerca de 3.000 municípios do país não existem médicos brasileiros. Para lá, ninguém quer ir. As razões não são segredo nem são impossíveis de serem compreendidas. A maioria dos médicos não quer viver, morar e clinicar em regiões muito distantes dos centros urbanos, independentemente do que Governo, estados e municípios ofereçam como salário.
Muitos que vão para o interior por conta da remuneração, não suportam mais de um ano e largam o posto. Há infinidades de pesquisas e dados sobre isso. Ou alguém já esqueceu de um passado brasileiro bem recente, em que alguns médicos trabalhavam em cinco, seis municípios, recebiam por todos eles e não apareciam em nenhum? Deem um Google. No fim do mundo tem tuberculose, leishmaniose, esquistossomose, malária e tifo. Mas não tem shopping center nem Netflix. A versão original desse raciocínio é do professor Marcelo Lira, e, quem ousar contestar, argumentos, por favor.
Isabel
Não deveríamos achar a dificuldade em se mudar para o fim do mundo um tabu, desses que a gente tem vergonha de confessar. Levante o dedo quem está disposto a ir morar nos confins do Brasil. Pegar mulher, marido, filhos e se afastar dos parentes e dos amigos. Sem possibilidades de atualização ou reciclagem frequentes, sem boas escolas para os filhos e sem opções de lazer, cultura, conforto e consumo. Apontar o dedo para o outro é fácil. E mais fácil ainda é aderir ao surrealismo ideológico fantástico de diagnosticar a atitude do presidente eleito Jair Bolsonaro, de não manter o convênio do Brasil por meio da OPAS quanto aos cubanos como um gesto diplomático de alforria.
Para os defensores dessa tese, Bolsonaro é uma espécie de Princesa Isabel dos médicos cubanos escravizados no Brasil em 2018. Vivemos para ver brasileiros preocupadíssimos com os direitos trabalhistas dos cubanos. E não adianta explicar que, além do Brasil, outros 65 países do mundo mantêm com os médicos de Cuba, através da OPAS, o mesmo tipo de programa. Só aqui é escravidão. Como os cubanos vão embora, a pergunta é: quem vai para o fim do mundo, atender os milhões de brasileiros que ficarão sem assistência? E não vale responder que quem já não tinha médicos a vida inteira pode se virar sem eles, de novo.

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