Por que alguém que está feliz consigo mesmo se incomoda tanto com a alegria alheia?


As redes sociais digitais dão hoje ao fenômeno da mediação dos fatos, dos acontecimentos e da experiência humana uma conotação e uma relevância que todas as outras mídias jamais foram capazes de dar. Apesar de uma série de outras plataformas que fizeram e continuarão a fazer a roda da comunicação girar permanecerem com suas respectivas importâncias e especificidades, as redes digitais de compartilhamento estabeleceram um novo modo de consumo da informação e de fruição das experiências individuais e sociais. Há os fatos em si, suas veiculações e repercussões, e uma instância paralela, que é a forma como se dá, hoje, a reverberação dos fenômenos sociais via redes.
Não há dúvida de que o evento que marcou a vida da cidade foi o show de Paul McCartney, na última sexta-feira, que levou à Arena Fonte Nova milhares de pessoas, não só de Salvador, mas de várias outras cidades brasileiras. E um show dessa magnitude, com uma das cabeças mais coroadas do showbizz internacional, é o exemplo ideal para revelar o lugar e a dimensão das redes na nova lógica de consumo e fruição das experiências.
INFERNO
Já de início fica claro que todo e qualquer fenômeno adquiriu um novo modo e uma nova lógica de acontecer. Houve o show do Beatle para o qual as pessoas compraram ingresso e saíram de suas casas para assistir e um outro, numa outra dimensão, bem diferente da experiência física de quem estava presente: o show das redes. Independentemente das diferenças quanto à emoção e aos modos de participação nos dois, o que fica evidente logo de cara é a característica humana que parece nunca mudar: a resistência às mudanças e transformações do mundo, que, indiferentes ao nosso desejo, vão acontecer e pronto.
Enquanto milhares de posts transmitiam o show particular que cada um via e do ponto físico e emocional dos quais era visto, milhares de outras narrativas diagnosticavam a repulsa e o estranhamento dirigidas a quem fazia isso, denunciando, em muita gente, uma espécie de orfandade de um tempo que não volta mais. Sim, há quem, ou anacronicamente do conforto de casa ou em nome de uma suposta e correta forma cristalizada de fruição defendida a ferro e fogo, desejava o inferno àqueles que faziam suas narrativas do evento a partir de seus smartphones.
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HUMANINHO
Por que alguém que está feliz consigo mesmo se incomoda tanto com a alegria alheia, com o preço do ingresso que o outro pagou em meio à crise ou com o fato de alguém fotografar ou filmar um evento se isso não é proibido? Um tipo de ser humaninho purista quer estabelecer como a fruição e experiência sensorial alheia deve ser e berra desejando a extinção de quem faz imagens de um espetáculo onde isso é amplamente permitido e incentivado pela lógica e pelo espírito do tempo e pela nova dinâmica dos espetáculos arrasa quarteirão. Um show de um ex-Beatles é um show de um ex-Beatles e não o sexo nosso de cada dia, cujo compartilhamento em rede soaria um tantinho estranho. Tanto as hashtags quanto as milhares de luzes de celulares das plateias há muito já foram incorporadas ao cenário desejável pelos artistas.
Os puristas argumentam que quem não se comporta como eles, cujas câmeras são a retina e provavelmente o coração, ao invés de curtirem os shows atrapalham os outros e perdem seu tempo filmando, fotografando e postando. Ora, quem decidiu diagnosticar que quem faz isso não curte, não dança, não bebe e nem canta? Um show pop num estádio de futebol não é exatamente uma ida ao confessionário da paróquia do bairro e, em si, já se configura em uma experiência coletiva. Sorry, órfãos da era sem celular: os filmadores de show chegaram e não vão deixar seus smartphones em casa. Quem não gosta deles, nasceu no tempo errado. Aceita que dói menos.

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