Os milhões de Wesley Safadão e a dificuldade de ser pai em 2018


Não é surpreendente a quantidade de pessoas, sobretudo mulheres, que não têm onde cair mortas e mesmo assim manifestaram solidariedade, nas redes sociais, aos milhões de Wesley Safadão? É muita falta de noção ou muita falta de vergonha alheia hipotecar solidariedade ao cantor milionário diante da decisão dele de ingressar com ação judicial com o objetivo de descontar da pensão alimentícia que paga ao primogênito, filho do seu primeiro casamento, o valor da mensalidade escolar, de R$ 2.6 mil?
Foram mulheres e homens ofendendo a ex-mulher de Safadão, mãe do menino, e aconselhando-o a pedir a guarda judicial da criança, para, assim, não ter que pagar a pensão ao menino. A juíza do caso determinou que a pensão ficasse em torno de 40 salários mínimos, 38 mil reais, o que desagradou os safadistas on-line, mesmo com o pai dizendo que achou o valor ótimo. Mas ele reivindicava pagar menos, que fique claro.
VAGABUNDA – Causa mais do que estranheza ver mulheres (a queixa masculina, a gente coloca na conta da solidariedade dos machos), muitas delas, inclusive, sem nunca ter parido, pois as conheço, manifestando raiva e inconformismo com o fato de Safadão pagar 38 mil reais de pensão ao filho. Só para relativizar, tá? O patrimônio do cantor era, em 2016, calculado em 14 milhões de reais, e o cachê de seus shows já chegou aos 800 mil reais. Hoje oscila entre 250 e 600 mil, dependendo de quem paga, como é o acerto e quão longe de casa é o show. Mesmo assim, muitas mulheres ficaram possessas com o fato de Safadão ter que pagar ao filho uma pensão de 38 mil e o aconselharam a pedir a guarda do filho.
Os argumentos: não sustentar a vagabunda (sic) da ex-mulher, com quem ele foi casado quando era pobre, e porque nenhuma criança custa 38 mil ao mês. Atentem, defensoras dos milhões safados: não se trata de vagabundagem nem de custo de uma criança. É puro direito do menino. Pensão não é sobre o custo de uma criança. É sobre a renda, o patrimônio do pai, sobre a proporcionalidade que cabe a cada herdeiro e sobre o direito a ter um padrão de vida compatível com o dos irmãos e os recursos do pai.
TÁ PUXADO – O dia dos pais se aproxima. E mesmo que você não dê a mínima para isso, o mercado dá e você será atingido pela onda. E já que estamos tão perto da data e falando no assunto, preste atenção: se durante séculos e séculos ser mãe era padecer no paraíso, como se essa contradição fosse possível, ser pai, em 2018 e na cultura ocidental, não está sendo maré para peixe. Uma provocação e uma pergunta: se você acha que faz parte da bolha culturete ou cool e ainda não viu o stand up comedy australiano Nanette, minta, mas responda: por que será que a comediante mais lacrativa do momento, a australiana Hannah Gadsby, não se refere uma vez sequer ao pai? Significa? Muito provavelmente, sim. E muito.
Este texto é sobre isso: se um dia foi muito confortável ser homem, branco, ocidental e heterossexual, sorry, esse tempo acabou. A própria Hannah avisa, com seu humor desconcertante, o quanto está puxado, em 2018, caber na caixinha “homem, branco, heterossexual”. E atenção, meninos da direita repressora: isso não é no Brasil., aqui, ali. É no mundo, tá?
O NOVO VEM – Mas nesse próximo dia dos pais dos shopping centers, há, sim, muito o que comemorar. O novo sempre vem, como cantava Belchior. Não percamos de vista o pai de sempre, o tradicional, que esteve sempre ali. Mas vamos abrir uma celebração para esses novos pais que nunca foram treinados para o que estão fazendo. Os pais que têm guarda compartilhada e não terceirizam o cuidado da cria, delegando-a para a avó. O pai solteiro que sofre sozinho vendo a filha adolescente chegando em casa, a essa altura da história do mundo, espancada pelo namoradinho. O pai que criou um menino e agora é informado que seu filho quer ser menina, ou o inverso. O homem que corre esbaforido do trabalho e sem almoço para poder dar banho em seu bebê prematuro no hospital. O pai que precisa ser pai dos netos porque a filha foi assassinada pelo marido. Os pais que precisam reaprender tudo após uma tentativa ou concretização de suicídio de um filho ou de uma filha. E parabéns aos pais que, sem vergonha, são capazes de se emocionar com a narrativa crua de Nanette. As mães? Ah, as mães sempre souberam de tudo…

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