O pau que deram em Chico, o Buarque


Se artistas, compositores, poetas, cantores, escritores, e todos que têm a criação como ofício, submetessem antes sua arte à banca ensandecida que emergiu com a web, não só não se concretizaria mais nenhuma obra de arte como até mesmo o legado artístico de vacas sagradas do mundo inteiro seria apagado e destruído. Assim como os talibãs, volta e meia, assombram o mundo destruindo monumentos milenares por discordarem dos valores da cultura que os produziu, agora, temos todo dia um nome submetido à ferocidade das redes. Para ficar em poucos exemplos brasileiros: Fernanda Torres é machista, Mallu Magalhães é racista, Rodrigo Hilbert é um exterminador de animais, Ney Matogrosso é um covarde omisso, que alimenta a homofobia, e agora se descobriu que Chico Buarque é machista, quase um misógino.
BÊBADO – Considerado uma das estrelas de primeira grandeza da música brasileira, Chico Buarque “era” quase uma unanimidade para quem gosta de MPB. “Era”. Antes da Internet. Num vídeo curtinho disponível na web, ele mesmo conta o quanto ficou surpreso quando descobriu, através de comentários de matérias online sobre sua obra, a quantidade de gente que tem raiva e ódio dele. Mais surpreso ainda com a intensidade das raivas. A lista de adjetivos usados para desqualificá-lo começava com velho e bêbado. Chico descobriu na web que ele próprio era uma Geni, personagem de uma de suas canções, contra quem se pede que atirem pedras e outras coisas piores.
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Está chegando agora um disco novo de Chico. Para promovê-lo, foi lançada antes a canção de trabalho, Tua Cantiga, uma declaração de amor de um homem a uma mulher. Aparentemente, um casal de adúlteros. A canção caiu na rede como uma bomba contra seu dono, atirada pelas mulheres, justamente seu público cativo. “Opressores machistas não passarão”. Este tem sido o tom dos comentários femininos em relação a Tua Cantiga, comprovando de modo redondinho a tese: está faltando amor no mundo, mas falta mais ainda interpretação de texto.
MACHISMO REVERSO – As mulheres, que sempre colocaram Chico num altar, agora acionam o dispositivo da sonoridade e convocam umas às outras para a guerra contra ele. Quase em uníssono, as que se manifestam nas redes dizem detestar os versos machistas da cantiga, reiterando que a coisa pegou mesmo foi no trecho “largo mulher e filhos/e de joelhos/vou te seguir”. O que as pessoas esperam de uma canção que se supõe amorosa e de um compositor que canta o tal do amor romântico? Aparentemente, hoje, esperam uma peça de ativismo, um roteiro para um tutorial feminista ou slogans para a marcha das vadias. Até parece que, na vida, essas coisas de paixão obedecem normas prescritivas de conduta e preceitos. Por que um casal de uma canção não pode comunicar sua paixão entre si nos termos em que bem quiser?
Tudo bem que Chico é Chico, mas para a turma dele, que, em termos quantitativos de público em relação à população brasileira, vamos combinar, nem é tão grande assim. Antes de apedrejá-lo, o homem, e de esquecer a licença poética do seu eu lírico, parem uns minutinhos e deem uma escutada nos versinhos de Amante Não Tem Lar, cantada por Marília Mendonça, e de Regime Fechado, cantada por Simone e Simaria, mulheres empoderadas que falam para um público cuja dimensão engole várias vezes o de Chico. E nadica de queixas femininas contra as moças. Talvez porque machismo reverso não exista e as sertanejas sejam tão somente vítimas alienadas do patriarcado. Para com a patrulha que tá feio.

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