Mamãe descolada

Ainda não consegui tirar da cabeça a declaração da atriz Taís de Araújo sobre as preferências lúdicas de sua filha de quase três anos.

Se entendi direito o que a Taís quis dizer é que ela – refiro-me à Taís – acredita que sexo é uma construção social, passa longe do determinismo biológico. Por isso, a sua preocupação em não oferecer aos filhos, um casal, brinquedos típicos de meninos e meninas.
Acontece que neste ambiente de respeito e liberdade – se é que compreendi o enredo -, a senhorita Araújo Ramos demonstrou, instintivamente, vocação para as lides mulherzinha: é doida por bonecas, vestidos de princesas e adora usar cor-de-rosa.
Um drama para a mamãe mega-ultra-blaster muderninha. Apesar do discurso descolado e do proclamado trauma de ver a filha agindo ao contrário de suas verdades, Taís Araújo parece não estar entendendo que a menina respondeu aos seus ensinamentos. Se teve liberdade para escolher os brinquedos favoritos e optou pelos tradicionais de menina é porque se sentiu à vontade para ser o que quer. Exatamente o que a mamãe desejava.
A impressão que fica – se compreendi bem, papo-cabecinha nem sempre é fácil de decodificar – mamãe Taís ficaria mais feliz se a filhota decidisse brincar de caminhoneiro, de guerreiro ou de marinheiro barra-pesada. Neste caso – que beleza – estaria provado urbi et orbe a educação de vanguarda que ela, Taís, está dando aos filhos. Aliás, ficou faltando uma informação neste drama familiar: o menino gosta de jogar bola e brincar de carrinho ou prefere usar roupa de princesa igual à irmã? De repente, o rapazinho salva a honra avant la lettre do clã em que nasceu, a gente nunca sabe.
Como sou avó, já passei por muita coisa na vida, ousarei meter o bedelho na história.
Mamãe Taís Araújo, relaxe, seus filhos desempenharão vida à fora os papéis sexuais que lhes estão traçados. Não vou dizer que pelos cromossomas porque sei que você não acredita nisso. Mas, creia-me, as estrelas já lhes indicaram o caminho. Sua filha, você queira ou não, vai crescer, menstruar, ter seios, engravidar e, seu Deus quiser – opss, as estrelas – ser tão bonita quanto você. Pode até ser que, um dia, ela descubra que nasceu no corpo errado. Na verdade, o que realmente queria era ser um pinguim ou o Karatê Kid. Nada muito complicado. Pinguim, andar vestida de smoking resolve – já pensou o drama se ela inventar que se sente um rinoceronte? Complicação demais, o universo não há de permitir. Se a opção for o Karatê Kid, também não há problemas. É só tomar hormônio, parar de tomar quando der na telha, sem encucações. Então você não está vendo o monte de mulher barbada parindo que é uma beleza? Seu papo de brinquedinhos de meninos e meninas já não é fashion. Relaxa.
Mas, aconteça o que acontecer – ser um pinguim, o karatê Kid, um rinoceronte, enfim, o que ela decidir -, o útero, os ovários, os cromossomas XX continuarão a influenciando. Ainda não conheci uma pessoa que tenha derrotado a biologia. Conviver amigavelmente, até dá. A sensacional Rogéria, que faleceu recentemente, demonstrou isto. Mas derrotar, ninguém derrota.
Por favor, deixe a guria em paz. Brincar de boneca não faz de ninguém uma pessoa melhor ou pior. O que atrapalha de verdade é bullying materno. Se ela descobre o que você andou falando, haja terapia para consertar-lhe a cabecinha.

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