De Anchieta a Brasília

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Eu visito o Espírito Santo pelo menos uma vez por mês. Tenho lá preciosidades que alimentam a minha alma. Aprendi a amar aquele lugar tanto quanto a me surpreender.

Por exemplo, o Estado tem uma das faixas litorâneas mais lindas desse país, e apesar disso a exploração turística é pífia. Acostumou-se a viver da mineração, petróleo e mármore.

Cinco meses antes do desastre conheci Anchieta, onde viveu e morreu o padre, hoje santo, José de Anchieta. História na veia, geografia extraordinária com rios, praias e uma comida de comer rezando. Ainda assim, a carteira da massa expressiva de empregos formais é assinada pela Samarco.

Pensei comigo naquele fim de semana profético: se der uma zica nessa empresa algum dia, essa cidade vai para o buraco.

Investir no turismo dá um tiquinho de trabalho, não é igual furar poço e passar no caixa para buscar os royalties. Envolve a cadeia produtiva privada, treinamento de mão de obra (que no ES é muito ruim) e estratégia. Por que tanto trabalho se o petróleo está alí, não é mesmo? Quantas pessoas das suas relações já foram ao ES a passeio? Daqueles que escolheram a viagem no balcão da agência de viagem? Aliás, agente de viagem vende o Espírito Santo? Já fiz uma pesquisinha mequetrefe e a resposta é 100% NÃO.

A Samarco era tratada em Anchieta como Excelência. Depois do estouro da barragem veio à tona não só uma incapacidade inexplicável de gestão como, principalmente, a mesma incapacidade para lidar com a crise. Não se sabe se os executivos estão mal assistidos ou se desconsideram solenemente as recomendações dos profissionais.

Quando uma diretora de sustentabilidade vem a público dizer que os dejetos da lambança servirão como adubo para o reflorestamento é porque a coisa era muito mais grave e caótica do que se imaginou no dia da tragédia.

Uma figura franzina chamada Paula Geralda, em cima de sua moto de nome Berenice salvou muito mais gente do que as sirenes da empresa, que nunca existiram. Elementar? Quanto custa uma sirene? Quanto custa um sistema de alarme à altura de uma empresa daquele porte? Em que gaveta estavam os planos de evacuação? Em qual armário estavam os protocolos de crise?

 Não estavam, e se existiam ninguém achou naquela hora.

E por não acharem, mandaram dois diretores a uma coletiva de imprensa, onde disseram que “não é hora de pedir desculpas”. Nem a minha linda neta capixaba, de dois anos, seria capaz de tamanha atrocidade.

Alguém no fundo de uma sala de guerra deve ter lembrado a eles que precisavam de uma agenda positiva. Olharam nos arquivos e lembraram da grana preta que investiam no fotógrafo Sebastião Salgado e chamaram o sujeito. Dalí em diante ele teria que sair por aí, concedendo entrevistas para defender a empresa e lançar um plano extraordinário para salvar o Rio Doce, suas nascentes e entorno.

Obediente, o funcionário da vez assim o fez e chegou até a presidente da República que, inepta, deu o abraço do afogado. Era o que tinha para o momento.  Tão raso, tão oportunista, que duas semanas depois ninguém fala mais nele. Nem no plano e tampouco no fundo que criariam para salvar em pouco tempo a desgraceira provocada pela absoluta irresponsabilidade de uma empresa e de um governo ineptos, corruptos, mal intencionados e mal conduzidos.

A lama ainda está ali. Como ali estão os corpos de muita gente que não foi “contabilizada”. Porém, o cheiro fétido vem das salas arejadas com poderosos aparelhos de ar condicionado. De Anchieta a Brasilia.

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