A beleza salvará o mundo?

Foto: Arquivo Google

Dá brilho no olho quando um filme brasileiro se torna tema de boca a boca, objeto de elogios e indicação de pessoas de diferentes faixas etárias, ideologias, grau de formação. Tem sido assim com “O filme da minha vida”, o terceiro dirigido por Selton Mello, um dos maiores talentos da sua geração, seja lá fazendo o que for. Adaptado da obra do escritor chileno Antonio Skármeta, cuja obra também foi adaptada para cinema em O Carteiro e o Poeta e em No, o filme de Selton é um sopro de beleza, talento, sensibilidade e esmero estético, sobretudo numa fase em que tudo no país se acinzenta a passos largos.
A fotografia de Walter Carvalho já é (sempre) razão de alumbramento, com uma cartela de cores que vão do verde da Serra Gaúcha, a toda uma variação de sépias nostálgicos e a tons de bordeaux que, e embora esteja longe de ser uma cor comum, está em praticamente todas as cenas do filme, indo do batom da irmã mais velha desinocente, às luzes e composições internas do bordel, aos detalhes do trem, do cinema, do figurino, chegando até mesmo à roupa de tricô do bebê. O filme é um assombro de belezas, apesar de aqui e acolá a crítica acusá-lo de uma certa mão pesada nas concessões feitas ao público no desfecho e de não ter desatados alguns dos nós do argumento.
O PORCO
Mas a intenção aqui é falar do mote que tem sido usado por Selton Mello no périplo midiático que todo diretor faz para divulgar seu filme. Ao falar do seu, Selton tem frequentemente citado Dostoievski para explicar a razão de ter buscado fazer um filme terno, onírico, bonito e otimista: “A beleza salvará o mundo”. A citação e a intenção são tão belas quando frustrantes. Embora o filme salve nossos mundos particulares durante suas cerca de duas horas, protegidos que estamos pelo escurinho do cinema, saímos de lá e volta ao imaginário o diagnóstico da personagem do próprio Selton, Paco, ao explicar a diferença entre o homem e porco. Simplificando, é elementar: o porco não sabe que é porco. O homem sabe que é homem.
A realidade do mundo e suas circunstâncias e conjunturas em mostram que a utopia de Dostoievski torna-se cada dia mais distópica. Diariamente, o mundo é ameaçado pela feiura humana e o homem avança a passos largos no processo de corticalização da inconsciência de si, assemelhando-se voluntariamente à alienação do porco, com o agravamento de cometer barbáries sabendo que as comete, querendo cometê-las. Nosso repertório das últimas semanas tem estado escalas e escalas abaixo do repertório dos porcos.
10 ESTUPROS
A ressurreição, no sentido coletivo, de supremacistas brancos americanos carregando suásticas em Charlottesville, o atentado em Madri, o registro de 10 estupros coletivos por dia no Brasil e outros crimes, permanentes ou recentes, só ilustram, concretamente, o quanto o homem do Século XXI continua a afastar-se da salvação pela beleza e aprofunda-se numa brutalidade da qual nenhum outro bicho é capaz. Por enquanto, e lá se vão 2017 anos, a beleza não tem sido capaz de salvar o mundo dessa civilização, apenas pedaços muito pequenos dele.
Embora o homem seja o único ser com a capacidade de mudar a trajetória de sua própria vida no instante em que quiser, continua escolhendo, frequentemente, em nome de milhares de argumentos e quase nunca em nome da sobrevivência, diferentemente dos bichos, machucar e exterminar o outro. Nos sobra a fuga de sermos salvos, inclusive de nós mesmos, pelas excursões aos territórios da beleza e da sensibilidade para onde a arte nos convida todo o tempo. Aqui fora, o mundo agoniza, eclipsando a beleza e sem sinais de salvação.

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