8 de agosto de 2022
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Ajuda, abraço e Ralph Lauren para os pobres

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As pessoas muito pobres podem ficar muito felizes. Na mesma semana, duas mulheres muito ricas, bonitas, louras e muito boazinhas anunciaram suas preocupações com os pobres. A primeira a fazê-lo foi a primeira-dama Marcela Temer, a primeira Lolita adulta da República, com seus vestidos algodoados, angelicais, que chegam a remeter, pelas imagens, a perfume infantojuvenil. Marcela disse que vai ajudar as crianças pobres e que quem ajuda pessoas muda histórias. O povo que trabalha com políticas públicas, saúde, educação e serviços públicos de assistência reagiu com fúria, pois considera que com voluntarismo, caridade e ajuda não se faz cidadãos, mas sim com políticas públicas e sem personalização.
Poucos dias depois foi a vez da futura primeira-dama da maior e mais importante cidade do país, São Paulo, a artista plástica Bia Doria, dizer o quão comovida ficou ao descobrir, durante a campanha eleitoral que elegeu o marido no 1º turno, João Doria Júnior (PSDB), que os pobres precisam de muito pouco para se sentirem bem. Para Bia, eles precisam apenas de um cumprimento, um carinho, um aperto de mão, um abraço. Bia mora numa das 10 maiores mansões de São Paulo, numa área de quase 8 mil metros quadrados, e o casal declarou ao TSE ter um patrimônio no valor de R$ 180 milhões. Circulam na imprensa informações de que os Doria omitiram da declaração à Justiça Eleitoral uma mansão de 11 milhões de dólares em Miami e que a mansão do Jardim Europa, um dos bairros mais luxuosos de São Paulo, foi declarada por apenas um quarto do valor real, que é de 50 milhões de reais.
ARRUMADEIRAS
João Doria Júnior não foi o único milionário eleito nas eleições de 3 de outubro. Mas, entre os ricos, foi o primeiro a enfiar o pé na jaca quando se trata de ignorar bom senso, descuidar-se, escorregar na ostentação e esquecer de vigiar-se ao dar entrevistas. Se tem coisa que jornalista bom adora é pegar políticos, milionários e famosos no contrapé, arrancando deles, em entrevistas, declarações que os farão arrepender-se para o resto de suas vidas. Na primeira semana após a eleição, o casal Doria disse o indizível, em se tratando de quem vai governar a cidade de São Paulo e, portanto, digam o que disserem, sabem que haverá forte repercussão.
Numa entrevista veiculada no fim de semana, Bia achou pouco dizer que os pobres, os humildes, só precisam de um abraço, de um carinho. Prosseguiu e foi ainda mais abaixo na ribanceira verbal: lamentou o fato de as arrumadeiras já não chegarem treinadas quando são contratadas, perguntou se o Minhocão era um tipo de viaduto e disse que perto dele só conhece a rua Avanhandava, “aquela vielinha tortinha onde fica a Famiglia Mancini” [famosa cantina italiana], segundo ela, o único lugar na cidade onde é possível “andar a pé, igual em Nova York”. Para fechar com mais ostentação, disse amar as ciclovias. Mas as de Sydney, na Austrália. As de São Paulo? São perigosas, inseguras.
SAFADÃO
Ao mesmo tempo, sem combinar com a mulher,  ou quem sabe por cumplicidade na ostentação, o próprio prefeito eleito, também numa entrevista, ao falar sobre o fato de ser chamado de almofadinha pelo modo como se veste, sempre com camisas de corte impecável e pulôver de cashmere, sacou do bolso de grife uma tirada de generosidade para defender, ao seu modo, claro, sua esperança de um Brasil ancorado na igualdade: “Algum dia, quem sabe, todos os brasileiros vão poder usar polo Ralph Lauren”.
Num país em que as crianças pobres terão suas histórias de vidas mudadas sob a ajuda voluntária convocada pela candura de Marcela, em que a primeira-dama da maior cidade se mostra tão preocupada com o treinamento adequado das arrumadeiras e o marido prefeito e, segundo ela, perfeito, sonha com todos usando Ralph Lauren, não há empecilho que possa deter o brilhantismo do futuro dos pobres. Ninguém detém um país  com elites tão cônscias das mazelas do povo. E na neoclasse média ainda se tem Wesley Safadão inaugurando campi universitários país afora e sendo anunciado com pompa e circunstância para atrair futuros alunos.

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