A latinha

Meninos, eu vi. Em 1951, o recém-eleito presidente Getúlio Vargas, preocupado com a fome brasileira, criou a COFAP, Comissão Federal de Abastecimento e Preços.

A COFAP estatal surgiu quatro anos antes da indústria COFAP Amortecedores. Muito, muito antes de o Lula anunciar o Programa Fome Zero e de os cachorrinhos Dauschund receberam o apelido de Cofap por conta de uma peça publicitária em que foram estrelas. Nem preciso dizer que a COFAP de Getúlio e o Fome Zero de Lula não decolaram. O Brasil continua faminto.
A COFAP produtos alimentícios inaugurou o meu sempre surpreendente diálogo com a realidade. Duas vezes, acompanhando a minha amada avó Maria, fui ao posto da COFAP que havia na rua Barão da Torre, em Ipanema, RJ. Eu era tão pequenina, que ainda não sabia ler. Minha relação com os produtos nas prateleiras limitava-se ao visual. Foi pelos olhos que me apaixonei por uma pequena lata vermelha de extrato de tomate, que achei estar repleta de goiabada. Apesar das explicações de minha avó, tanto teimei que ela me deu a lata de extrato de tomate.
Em casa, latinha aberta, lembro-me da decepção e de não dar o braço a torcer. Ainda encarei duas colheres pequenas de massa de tomate, até a minha avó impedir o autoflagelo. O gosto horrível, porém, permanece em minha boca. Assim como permanece em minha vida a sensibilidade da vovó que, ao me dar a latinha, permitiu-me sonhar para aprender a quebrar a cara – o mundo não é fácil, baby, nem tudo é o que parece.
Conto isso porque a semana que passou foi igual à minha ex-quase latinha de goiabada, um absoluto nonsense. Para começar, um renomado paranormal, capaz de curar de corações feridos a doenças terminais, revelou-se um predador sexual. Quem o denunciou foi uma senhora que usa o pomposo título de Coach Espiritual. Coach Espiritual? Estou ficando velha, não entendo nem o que é um Coach. Espiritual, então, nem se fala. Acho que, no meu tempo de colégio de freiras, Coach Espiritual era o padre confessor. Isso, quando o próprio não era também o predador sexual. Muitas falsas latinhas de goiabada, ainda bem que descobri cedo.
A outra surpresa foi a super repetida palavra Coaf, que lembra a COFAP da minha infância, mas é a abreviação de Conselho de Controle das Atividades Financeiras. Dormindo em berço esplêndido desde 1998, quando foi criada por FHC, a Coaf saiu subitamente da toca para denunciar uma movimentação de 24 mil Reais na conta da sra. Michelle Bolsonaro. Outra latinha. Ao ler a notícia, fiquei escandalizada: 24 milhões de Reais? Quer dizer que voltamos à etapa zero no quesito corrupção? Mas, dessa vez, a latinha tinha mesmo goiabada. Afinal, trata-se de uma dívida de 24 mil Reais, paga em dez prestações. Ainda por cima, em cheques nominais.
Fiquei aliviada. Se era para eleger corruptos, deveríamos ter mantido os que sabem roubar com distinção. Bilhões, trilhões de Reais sem deixar rastros. Eleger quem não declara 24 mil Reais ao IR e ainda passa cheques no próprio nome é, convenhamos, muita pobreza. Nesse caso, eu voltaria aos primóridos, mas pelo avesso. Teria comprado uma lata de goiabada e encontrado, em seu interior, o amargor da massa de tomate.
Tinha razão a a minha sábia avó, o mundo não é fácil.

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