A estagiária envelheceu

Semana passada, reclamei no Facebook dos eleitores de Freixo. Nem todos, claro. Acho até que era a minoria. Mas deu um ataque em parte do povo e alguns desandaram a destratar quem não gosta da Esquerda. Eu, por exemplo.

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Não votei. Moro em Portugal e dessa sinuca de bico me livrei. Tenho horror ao Freixo, mais horror ainda ao bispo. Anularia o meu  voto. Com certeza, o Rio de Janeiro pensa igual à mim. Afinal, as abstenções e votos nulos/brancos somaram 41,5% e o vencedor Crivella recebeu apenas 34,7. O Freixo, coitadinho, ficou em terceiro lugar.
Acho que surpreenderei. lá vai uma confissão: torcia pela vitória do Freixo.
Mas torcia por maldade. Amaria ver o caos na cidade com o protetor dos desvalidos dando ordens. Amaria ver os meus amiguinhos socialistas da Zona Sul carioca, todos muito elitistas (embora não saibam), levar uns trancos de pivetes. Adoraria testemunhar os meus esquerdistas de estimação sendo obrigados a encarar a pobreza, que a maioria só conhece (vagamente) através de discursos.
Esta conversa toda é para dizer que, quatro dias antes da eleição, recebi um inbox de uma conhecida. Entre outras coisas, ele me chamou de, digamos, feia e boba por ser contra o PSOL. Nunca fomos amigas, mas nos esbarramos por aí. Ao ler a mensagem, tudo que achava dela se confirmou. Fulana, e o jeitinho humilde com que adora desfilar, é convencida, dona da verdade e arrogante.  Socialista, enfim.
Ou seja, não me surpreendi.  Sempre achei que ela arrasta uma sandalinha merreca. Não sei se por falta de um Sacré Coeur no currículo ou se para fazer o estilo porque-me-ufano-de-ser-pobrinha, apesar dos alguns imóveis. É, assim mesmo, no plural.
Minha ex-conhecida não consegue entender que, igual à ela, desejo que as pessoas do meu país vivam em paz, com saúde, segurança, escolaridade e alegria.
Só que acreditamos em caminhos diferentes para chegarmos à tanta felicidade. Fulana  aposta que o jeito bonzinho de ser consertará as desigualdades. Eu creio que a estrada  é longa e, antes de mais nada, precisaremos educar uma geração – prestem atenção, a garotada sem limites que está crescendo beira à selvageria. Além do mais, já perdi as ilusões. Sei que as elites existem e sempre existirão. Em todos os lugares, em qualquer sistema de governo. Ou alguém acredita que Kim Jong-Un, por exemplo, raciona luz igual aos outros norte-coreanos?
Felizmente, aprendi desde pequena a não ofender ninguém. Ao menos, com palavras de baixo calão. Olhem que interessante: a missiva da criatura me fez descobrir que ela, a socialista, divide as pessoas em castas. Umas valem mais do que as outras. Enquanto eu, a coxinha – supostamente fascista, radical, fanática e burra -, acredito que somos iguais.
Isto se chama berço e um bom berço, ninguém inventa. Tem-se ou não.
Você, ex-conhecida, é uma personagem do Nelson Rodrigues: a estagiária de calcanhar sujo,  que envelheceu
Mas compreender esta história de calcanhar sujo é demais para a sua cabecinha pseudo-socialista e para as sandalinhas que você arrasta.
Não custa anotar em seu caderninho, pode lhe ser útil na próxima encarnação. Ser bem-nascida  faz toda a diferença no convívio humano.
Gente fina  escreve crônica desaforada – aberta, clara, limpa. Jamais envia ofensas por mensagem inbox.
Questão de classe, querida.

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