22 de maio de 2024
Sergio Vaz

Imprescindível Padura

Poderia flanar em Paris. Prefere combater em Havana. Por Sérgio Vaz
Que figura absolutamente fantástica, fascinante, esse Mario Conde. Da geração que aprendeu a ler já na Cuba livre da ditadura nojenta de Fulgencio Batista (dá para imaginar que ele seja de 1955), teve veleidades literárias no final da adolescência, umbral da idade adulta: na época do pré-universitário, escreveu contos, e chegou a publicar um deles em uma revista literária fundada por um grupo de amigos.
A carreira literária foi abortada ali mesmo, quando o Regime considerou a revista de uma maneira geral e seu conto em especial perigosamente não-revolucionários.
E então Mario Conde chegou aos 35 anos idade com dez anos na polícia de Havana, sem bem saber por quê. Tinha o posto de tenente, fama de ótimo investigador de crimes, respeito e amizade do chefe, o major Rangel, mas bastante desconfiança por parte dos sujeitos da corregedoria. Definitivamente, não era bem visto pelo Establishment. No verão de 1989, tinha sido suspenso das atividades de investigação depois de uma briga feia com um colega, e estava condenado a um insuportável trabalho burocrático na Central de Polícia.
Nunca mais tinha escrito nada – embora tivesse continuado a ler sem parar, de tudo, de Sartre e Camus a Chandler e Hammett, passando por tudo o que havia à sua frente.
Tinha tido grandes paixões, grandes e belas mulheres, mas agora, aos 35 anos, estava sozinho. Vivia num pequeno apartamento desarrumado e onde a cada dia parecia que iria faltar mais um item básico, como o pó de café ou o rum.
Sim: Mario Conde, quase ex-futuro escritor, leitor voraz, inteligente, sensível, não absolutamente ajustado na sociedade da Cuba Revolucionária, tenente de polícia nem ele mesmo sabia explicar por quê, costumava beber em doses cavalares. Industriais.
Naquele agosto de 1989, em que um calor nunca visto tornava insuportável a vida na ilha, o major Rangel, o chefe da Polícia, chamou seu melhor investigador, suspendeu sua suspensão e o encarregou de um caso delicadíssimo: o assassinato, com sinais particularmente violentos, de um travesti.
Um caso especialmente delicado, porque simplesmente não era para existir travesti na Cuba do hombre nuevo, da felicidade geral do socialismo – que, careta como é a moral socialista, considerava que esse negócio de veado é nojento e tinha que acabar. E, para complicar ainda mais, e tornar o caso mais especialmente delicado, o travesti assassinado era filho de alto funcionário do governo, homem da Nomenklatura.
Basta dizer que, na ilha da dureza socialista, do pouco conforto material justissimamente dividido entre (quase) todos, na garagem do pai da vítima havia um Mercedes e um Toyota. Ora, raios, justiça socialista, sim, mas há sempre os privilegiados, coño!
Mais fantástico, fascinante que o tenente Mario Conde, só seu criador, Leonardo Padura Fuentes.
***
Padura não diz explicitamente, creio, que Mario Conde nasceu em 1955. Foi por isso que eu disse que dá para imaginar: em Máscaras, o terceiro livro da tetralogia com o policial de Havana, se diz com todas as letras e números que a ação se passa no verão de 1989, durante o mês de agosto. E, lá pelas tantas, cita que Conde está com 35 anos – o que indica que ele é da mesma geração de seu autor. Leonardo Padura Fuentes nasceu em 1955. Quatro anos antes do final da ditadura de Fulgencio Batista e da ascensão de Fidel Castro ao governo.
Padura, portanto, assim como sua criatura – que, é fácil perceber, se parece bastante com ele –, aprendeu a ler já nos novos tempos, os tempos em que se buscava a formação del hombre nuevo, el hombre del porvenir, o homem dos novos tempos do socialismo.
Nasceu em 1955, em Mantilla – um dos dez Consejos Populares do bairro de Arroyo Naranjo, ao Sul do centrinho de Havana, “La Habana, Cuba”, como dizia e repetia Fidel em seus intermináveis discursos.
Ao fim de Máscaras, ele fez questão de escrever local e data: “Mantilla, 1994-1995”.
E aí está um resumo breve de por que Leonardo Padura Fuentes é uma figura absolutamente fantástica, fascinante: ele continuou morando no mesmo bairro da capital cubana em que nasceu. Morava lá quando escreveu o terceiro dos quatro livros com o tenente Mario Conde como protagonista, e mora lá até hoje, ao que tudo indica.
Em seus livros – e são muitos, mais de duas dezenas –, faz duras, firmes, ácidas críticas ao regime cubano, o regime comunista imposto por Fidel e que prossegue, embora cada vez mais cambaleante, após sua morte.
Leonardo Padura critica com vigor a ditadura que Fidel implantou em seu país – e, no entanto, o governo ditatorial que nestes últimos 57 anos já matou no paradón dezenas e dezenas de opositores, e trancafiou nas suas masmorras centenas e centenas e centenas de opositores, deixa que ela permaneça escrevendo seus livros. Não o prende. Não procura importunar de todas as formas sua vida, como faz com opositores como a blogueira Yoani Sánchez.
E até o premia!
Padura já recebeu diversos prêmios literários, na Espanha, na França, na Itália. Recebeu em 1998 e em 2006 o Prêmio Hammett, dado pela Associação Internacional dos Escritores de Policiais.
Até aí, tudo bem, nada demais. Organizações de países democráticos estão cansadas de premiar escritores de países que vivem sob ditaduras, Boris Pasternak e Alexander Soljenitsin que o digam.
Mas Cuba o premia!
Em 2012, Padura recebeu o Prêmio Nacional de Literatura de Cuba.
E até mesmo O Homem Que Amava os Cachorros, muito provavelmente sua obra-prima, editada na Espanha em 2009, um romance histórico arrebatador, impressionante, extraordinário em tudo por tudo, em que ele agudiza ainda mais as críticas ao regime cubano, recebeu, entre diversos outros, o Prêmio da Crítica em Cuba.
É mais ou menos como se, na fase mais aguda da repressão aos opositores da ditadura militar instalada no Brasil em 1964, os órgãos oficiais, em vez de censurar, perseguir ou tentar prender Chico Buarque de Hollanda ou Geraldo Vandré ou Augusto Boal ou Millôr Fernandes ou Antônio Callado, os premiassem.
***
Claro que esse último parágrafo é uma boutade, uma brincadeira, um chiste.
Algo mais próximo da verdade certamente está contido no que o cineasta checo de nascimento, criação, educação e primeiros filmes Milos Forman uma vez falou a respeito do cinema que se fazia nos países comunistas do Leste Europeu nos anos 60:
“Pertenci a uma geração de diretores checos que foram favorecidos por um instante de abertura” (ele não usou a expressão Primavera de Praga), “que fizeram filmes que foram aprovados no Ocidente, e os dirigentes comunistas detestavam aqueles filmes, mas ao mesmo tempo ficavam absolutamente contentes com o fato de aqueles filmes estarem recebendo elogios no Ocidente. E por isso pudemos continuar fazendo filmes, até que os tanques russos invadiram a Checoslováquia, em 1968, e aí eu fugi para cá.”
O regime castrista com absoluta certeza detesta Leonardo Padura Fuentes, tudo o que ele escreve, tudo o que ele representa.
Pois Padura expõe em seus livros, com a clareza magnífica de água saindo da fonte, todas as mazelas do regime autoritário, ditatorial. A falta absoluta de liberdade em todos os sentidos. A teia de informantes que permeia todos os movimentos de cada um dos habitantes do país, e que mantém atualizados dossiês específicos, individuais, sobre todos as pessoas. A certeza que as pessoas mais informadas têm de que tudo que elas dizem e até mesmo pensam está sendo registrado pela polícia política.
A sabujice diante dos chefetes e dos chefões a que todos são obrigados, para não cometerem o crime de parecer independentes demais, ou então mais claramente ainda traidores da Revolução, possuidores de índole burguesa, reacionária, antipopular, antiprogressista.
O poder que cada informante, cada guarda de esquina passa a ter sobre a vida dos outros.
A ordem unida, o centralismo democrático, que define o que é bom e o que é ruim em todos os tipos de manifestação da arte humana – e então daí saem os éditos que determinam o que é filme bom, o que é música boa, o que peça de teatro boa.
Então não é invencione imaginar que o regime castrista detesta Leonardo Padura Fuentes, tudo o que ele escreve, tudo o que ele representa.
Mas Padura – assim como os grandes cineastas dos países do Leste Europeu submetidos forçosamente ao comunismo pelo Exército Vermelho que tomou o lugar dos nazistas – faz arte grande, e então atrai admiradores no mundo inteiro, e então não seria inteligente prendê-lo, impedi-lo de escrever, de publicar.
E então o regime tolera Padura. Permite que ele continue lá, falando mal do regime.
É fantástico.

***
E é fantástico também que Padura continue lá, em Arroyo Naranjo, o mesmo bairro em que nasceu.
Aqueles prédios belos mas muito velhos caindo aos pedaços. Os elevadores que ficam mais tempo quebrados do que funcionando. A falta das coisas básicas, os cupons necessários para se obter os mantimentos de primeira necessidade, a precariedade de tudo, a existência permanente de uma rede de mercado negro.
Padura poderia perfeitamente estar vivendo em Paris. Poderia ser vizinho de Chico Buarque no bairro de Marais, na Île de St. Louis.
Se, por alguma frescura, esnobasse a cidade mais fascinante do mundo, que tanto encantou Alberto Marqués – personagem fundamental do livro Máscaras –, poderia ter se instalado confortavelmente na maravilhosa Madri das cores de Almodóvar. Ou na Barcelona das Ramblas de Gaudí e tantos, tantos, tantos artistas – e de Ramón Mercader, o stalinista assassino, um dos três protagonistas de O Homem Que Amava os Cachorros.
Mas não. O sujeito teimou em permanecer no seu país. Na sua cidade. No seu bairro.


***
Em Retorno a Ítaca, esplendoroso filme franco-belga de 2014 escrito a quatro mãos pelo cineasta francês Laurent Cantet e por Leonardo Padura, um cubano há muito exilado em Madri retorna a Havana e, num sabadão, revê três grandes amigos da juventude. Conversam durante muitas horas, da tarde do sábado até o amanhecer do domingo. Discutem, brigam, se emocionam juntos, se abraçam, se carinham. Os três que haviam permanecido em Cuba ficam absolutamente indignados quando o amigo agora europeu informa que tinha vindo para ficar. Eles não admitem: como assim, ficar aqui nesta merda, se você está lá, está numa boa?
O amigo que tinha há tanto tempo se estabelecido lá longe de tanta pobreza, tanta carência das coisas mais básicas, do sabonete à liberdade de criticar o governo, diz a eles que longe de sua terra não consegue escrever.
Quer voltar porque quer voltar a escrever.
Leonardo Padura cria personagens que são obviamente parecidos com ele.
O sujeito que tinha se dado bem, materialmente, na Espanha, mas lá não conseguia escrever, é muito parecido com o tenente detetive Mario Conde. Que por sua vez me parece idêntico a Leonardo Padura.
Entre viver confortavelmente no exílio, mas longe do seu lugar, da sua cidade, de seu país, e viver entre os muitos perigos de uma ditadura que um dia vai acabar, que está para cair de podre, melhor a segunda opção.
Verdade que é muitíssimo menos confortável.
Chico Buarque, Oscar Niemeyer, esses nossos tão queridos stalinistas, jamais pensaram em morar ali pela Calle 6, ou 10, tão pertinho do Malecón, quanto menos em qualquer dos dez Conselhos Populares do bairro de Arroyo Naranjo.
Mas Leonardo Padura fez a opção pelo muitíssimo menos confortável.
Como dizia Leonard Cohen, ele fez a opção de to try to change the system from within. Tentar mudar o sistema pelo lado de dentro.
O que, afinal de contas, vem a ser o que Bertold Brecht e também Silvio Rodriguez, ao citar o socialista alemão que jamais, jamais, jamais poderia ser chamado de stalinista, defendiam.
Em tradução livre, como diriam os jornais de ultimamente, todos eles, Cohen, Brecht, Rodriguez, nos ensinaram que os homens que lutam a vida inteira – não em Paris, mas em sua própria terra; não do lado de fora, mas por dentro do Sistema – são os imprescindíveis.
Leonardo Padura é imprescindível.

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