Imbecilidades, desmandos, ofensas

Nunca um presidente da República fez tanta asneira em tão pouco tempo.

No curtíssimo espaço de dois dias, a quinta e a sexta-feiras, 18 e 19/7, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu a proeza de protagonizar uma série incrível de imbecilidades, desmandos e ofensas à Constituição, à Federação, a diversas personalidades respeitáveis, à liberdade de expressão, à verdade dos fatos e ao bom-senso.
É uma grande pena que Mary Zaidan não esteja no Brasil para escrever sobre essa descomunal performance do presidente da República com aquela lucidez, clareza, estilo, verve e firmeza que caracterizam seus textos. Evidentemente não tenho qualquer pretensão de preencher a lacuna deixada pela ausência dela, mas não dá para, no mínimo, no mínimo, fazer o registro, reunir aqui os absurdos perpetrados pelo sujeito em apenas 48 horas.
1 – O ataque aos governadores
“Daqueles governadores de paraíba, o pior é o do Maranhão. Não tem que ter nada com esse cara.”
Bolsonaro fez a afirmação em conversa com o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, segundos antes do começo de entrevista coletiva a correspondentes estrangeiros, em café da manhã na sexta-feira. É preconceituoso, ofensivo – “paraíba” é usado no Rio de Janeiro para depreciar os nordestinos de maneira geral. Mas é um ataque claro, direto, a várias unidades da Federação. E indica uma ameaça ao tratamento igualitário que os Estados devem receber do governo federal.
Com elegância, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), respondeu no Twitter: “Independentemente de suas opiniões pessoais, o presidente da república não pode determinar perseguição contra um ente da Federação. ‘Não tem que ter nada para esse cara’ é uma orientação administrativa gravemente ilegal.”
No sábado, 20, como é de seu estilo, o presidente tentou desdizer o que todo mundo viu que ele disse. “Eu fiz uma crítica ao governador do Maranhão e da Paraíba, vivem esculhambando obras federais, que não são deles, são do povo. A crítica que eu fiz foi aos governadores, nada mais.” Perguntado se o termo “paraíba” não foi uma crítica ao Nordeste, saiu-se com isto: “A maldade tá no coração de vocês. Tenho tanta crítica ao Nordeste que casei com a filha de um cearense.”
2 – “Não há fome no Brasil”
“Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora, passar fome, não. Você não vê gente, mesmo pobre, pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países por aí pelo mundo.”
Esse brutal, insensato ataque à lógica e à verdade dos fatos foi feito no mesmo café da manhã com jornalistas estrangeiros no Palácio do Planalto na manhã da sexta-feira. A reação foi tão rápida, divulgaram-se tão imediatamente as estatísticas que mostram a existência de mais de 5 milhões de brasileiros desnutridos, que horas depois o presidente da República voltou atrás, desdisse o que tinha acabado de dizer e falou que “alguns passam fome”.
3 – O ataque à verdade e a Miriam Leitão
Bolsonaro afirmou – também no café da manhã com correspondentes estrangeiro – que Miriam Leitão “tentou impor a ditadura no Brasil na luta armada”. “Ela estava indo para a guerrilha do Araguaia quando foi presa em Vitória. E depois (ela, Míriam) conta um drama todo, mentiroso, que teria sido torturada, sofreu abuso, etc. Mentira. Mentira.”
Quem mentiu foi ele.
Levou uma traulitada no Jornal Nacional de sábado, quando a jornalista Renata Vasconcellos leu uma nota de repúdio da Rede Globo. Um trecho: “Em defesa da verdade histórica e da honra da jornalista Miriam Leitão, é preciso dizer com todas as letras que não é a jornalista quem mente. Miriam Leitão nunca participou ou quis participar da luta armada. À época militante do PCdoB, Miriam atuou em atividades de propaganda. Ela foi presa e torturada, grávida, aos 19 anos, quando estava detida no 38º Batalhão de Infantaria em Vitória. No auge da ditadura de 64, em 1973, Miriam denunciou a tortura perante a 1ª Auditoria da Aeronáutica, no Rio, enfrentando todos os riscos que isso representava na época.”
4 – O ataque à liberdade de expressão e ao cinema brasileiro
Em mais um de seus movimentos contra a cultura, as artes e os artistas, Bolsonaro meteu as patas no cinema brasileiro. Transferiu a estrutura do Conselho Superior de Cinema do Ministério da Cidadania para a Casa Civil, diminuiu o número de representantes do meio cinematográfico ali, e ameaçou transferir a sede da Agência Nacional do Cinema (Ancine) do Rio para Brasília.
Mais ainda: prometeu interferir para direcionar as verbas públicas apenas para filmes que tratem de temas que agradem ao governo dele. E ameaçou mais: se suas ordens não forem obedecidas, se o governo não puder escolher que tipo de filme pode ser feito, ele fecha a Ancine. “Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine”, trombeteou.
“Não posso admitir que, com dinheiro público, se façam filmes como o da Bruna Surfistinha. Não dá. Não somos contra essa ou aquela opção, mas o ativismo não podemos permitir, em respeito às famílias.”
Numa entrevista, especificou que têm que ser feitos filmes sobre os heróis da História brasileira. Não especificou o nome dos heróis, mas certamente pensava nos torturadores Brilhante Ustra e Sérgio Paranhos Fleury ou no ditador Garrastazu Médici, por aí.
Raquel Pacheco, que usou o apelido de Bruna Surfistinha quando foi garota de programa, cuja vida foi retratada no filme e trabalha hoje como DJ, comentou, com toda lógica e razão do mundo: “Sobre mais uma infeliz declaração do Bolsonaro, digo que, antes dele fazer juízo de valor sobre os outros, deveria cuidar da moral da própria família e do nosso país. Ele está cuidando demais do que não precisa e fazendo pouco do que é realmente necessário para termos um país melhor”.
A atriz Deborah Secco, que interpretou Bruna Surfistinha, disse: “Temos que falar sobre tudo para que, através da arte, possamos debater a realidade. Não podemos nos calar vendo tudo isso. (O filme) retrata uma história real, não só da Bruna, mas de outras mulheres que se encontram nessa situação. Queria muito que nenhuma mulher tivesse que se vender para sobreviver, mas essa não é a realidade do nosso país.”
5 – Mas que desmatamento que nada
Bolsonaro questionou, na sexta-feira, os dados do próprio governo sobre o aumento do desmatamento na Amazônia.
Três semanas atrás, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou que o desmatamento na Amazônia aumentou, em junho, quase 60% em relação ao mesmo mês em 2018. A floresta perdeu, no mês, 762,3 km² de mata nativa, o equivalente a duas vezes a área de Belo Horizonte.
Pois o presidente disse suspeitar que o diretor do órgão oficial responsável pela coleta de tais informações está “a serviço de alguma ONG”!
“Com toda a devastação que vocês nos acusam de estar fazendo e de ter feito no passado, a Amazônia já teria se extinguido”, disse, na reunião com correspondentes internacionais. “Isso acontece com muitas revelações, como a de agora (…), e inclusive já mandei ver quem está à frente do Inpe para que venha explicar em Brasília esses dados que foram enviados à imprensa.”
O homem é mesmo uma absoluto toupeira.
Em nota, o Inpe refutou as acusações, lembrando a “transparência de seus dados” e a “consistência de sua metodologia”, que permitem pesquisas com índice de precisão superior a 95%.
6 – A fantástica trapalhada do FGTS
Mais uma vez, o Palácio do Planalto distribui nota oficial para desmentir algo que o presidente da República havia afirmado.
Na sexta-feira, ele disparou sua metralhadora giratória Thompson M1921 para cima da multa de 40% sobre o saldo do FGTS que os empregadores têm que pagar quando mandam embora um funcionário sem justa causa. “O que acontece depois disso? O pessoal não emprega mais por causa da multa”, decretou ele.
À noite, nota do Palácio do Planalto negou que o fim da multa esteja em estudo: ‘O governo federal esclarece que não existe qualquer estudo sobre o fim da multa de 40% sobre o saldo do FGTS”.
Isso foi só mais um capítulo numa novela grotesca que vem rolando desde a semana anterior sobre a possibilidade de os trabalhadores fazerem saques do FGTS, como medida para injetar dinheiro na economia. O Estadão tratou dela em editorial neste sábado, 20/7, sob o título “Faltou governo, sobrou fiasco”. Alguns trechos:
“Qualquer dia, quando ninguém atrapalhar e o governo souber como executar a medida, será anunciada a prometida injeção de recursos para ativar o consumo e reanimar a economia – se a ideia ainda estiver valendo. Será na próxima semana, segundo o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, mas qualquer previsão é arriscada, depois do fiasco da quinta-feira. O lançamento oficial do plano estava previsto para aquela data, na celebração dos 200 dias de mandato do presidente Jair Bolsonaro. Para explicar a mudança, fontes do Executivo deram destaque a dois obstáculos inesperados: pressões de empresários da construção civil e despreparo da Caixa para cuidar da liberação do dinheiro. Esses dois fatos bastariam para caracterizar improvisação e amadorismo. Mas houve mais que isso. Ainda faltavam cálculos sobre as condições de saque do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). (…)”
“Pelas declarações iniciais, poderiam ser liberados cerca de R$ 63 bilhões de recursos do FGTS e do PIS-Pasep. Mas ainda faltavam informações a respeito dos limites e do calendário dos saques. Na sexta-feira, um dia depois de suspenso o anúncio oficial, o roteiro continuava obscuro. Mas uma novidade parecia haver-se consolidado: os titulares de contas do FGTS poderiam candidatar-se a retiradas anuais, mas, nesse caso, perderiam direito ao saque total em caso de demissão sem justa causa. De repente, o plano pareceu ganhar dimensão maior, ultrapassando o objetivo inicial de um impulso à reativação dos negócios.
“A discussão pode parecer muito interessante, mas cada novo detalhe divulgado confirma a improvisação e o despreparo do governo para lançar as ações de estímulo. Não só a Caixa precisava de tempo para organizar sua atividade. Também no Ministério da Economia faltava completar detalhes essenciais do planejamento. (…)
“Não há como negar. Faltou gestão. Falharam a equipe econômica e o presidente da República. Todos comprovaram, de novo, despreparo para a administração pública, mas o diagnóstico mais preciso pode ser menos benevolente. Nenhuma empresa irá muito longe se os seus dirigentes negligenciarem, como têm feito os atuais governantes do País, detalhes necessários à materialização dos objetivos. Que dizer de um país?”
7 – Bolsonaro cede à pressão e Censo terá um item a mais
Há meses discute-se no IBGE uma forma de diminuir o questionário do Censo Demográfico de 2020, já que o orçamento do instituto foi – como praticamente todas as áreas do governo – atingido pela necessidade de cortes. Mas, de repente, não mais que de repente, o presidente Bolsonaro cedeu ao lobby dos pais de crianças autistas, e sancionou na quinta-feira uma lei que inclui no Censo um inédito levantamento sobre a população autista do Brasil.
A presidente do IBGE, Susana Cordeiro Guerra, já havia demonstrado que que “o Censo não é a pesquisa adequada para se levantar o número e autistas no Brasil”, e defendido que o levantamento fosse feito por meio da Pnad Contínua. Mas explicações técnicas, razão, lógica não contam nada no governo Bolsonaro.
Segundo O Globo, “a decisão de Bolsonaro de sancionar a lei representa uma mudança de posição do presidente e contrasta não apenas com a análise técnica do IBGE sobre o tema, mas com a decisão, anunciada em abril, de reduzir o número de perguntas do próximo Censo de 112 para 76, visando a redução dos gastos com a pesquisa.”
Nada, absolutamente nada contra os pais dos autistas. Mas será que o presidente vai ceder também aos lobbies dos pais de crianças com síndrome de Down, e de diversas outras doenças?
8 – Rosa para meninas, azul para meninos
Pois não é que o presidente da República Federativa do Brasil, durante um evento no Palácio do Planalto para comemorar 200 dias de governo, fez brincadeirinha com a cor da gravata do presidente do Senado?
Como se não houvesse problemas a serem enfrentados neste país de mais de 13 milhões de desempregados e economia paralisada.
Davi Alcolumbre usava uma gravata cor de rosa. Bolsonaro: “Apesar da gravata cor de rosa, eu gosto dele. É meu amigo”.
Sujeito idiota.
9 – “Pretendo beneficiar filho meu, sim.”
A marcha da insensatez absoluta da intenção de nomear o filhote número 03 para o posto mais importante da diplomacia brasileira prossegue a toda. Na quinta-feira, numa de suas transmissões ao vivo nas redes sociais, Bolsonaro afirmou: “Pretendo beneficiar filho meu, sim. Se eu puder dar um filé mignon pro meu filho, eu dou, mas não tem nada a ver com o filé mignon essa história aí. É aprofundar o relacionamento com a maior potência do mundo.”
Como para Bolsonaro besteira pouca é bobagem, ele voltou, na sexta-feira, a atacar todos os embaixadores brasileiros em Washington nas duas últimas décadas: “Você pode ver os últimos embaixadores do PT nos Estados Unidos. Me aponte uma ação deles favorável ao Brasil”. Dois dias antes, na quarta-feira, em viagem à Argentina, ele já havia dito que desde 2003 os embaixadores brasileiros “não fizeram nada de bom”.
Com essa frase, ele insultou Rubens Barbosa, Roberto Abdenur, Antonio Patriota, Mauro Vieira, Luiz Alberto Figueiredo e Sérgio Amaral .
Ontem, insultou nominalmente o ex-senador e ex-ministro Aloysio Nunes Ferreira: “Agora, quando está na frente do MRE (Ministério das Relações Exteriores) o motorista do Marighella, como o senhor Aloysio Nunes Ferreira, ninguém fala nada.”
Na Argentina, o presidente também já havia dito que poderia indicar o filhote para ser ministro das Relações Exteriores. Repetiu isso na sexta-feira: “Eu posso chegar hoje e falar: Ernesto Araújo está fora, o Eduardo Bolsonaro vai ser ministro das Relações Exteriores. Ele vai ter sob seu comando mais de uma centena de embaixadas no mundo todo.”
Bolsonaro, o Rei Sol. O Estado é ele.

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