Mitos sobre criatividade que precisamos esquecer


Inovação, invenção, genialidade… chega de confusão. Entenda o conceito de criatividade — e como ela se aplica aos negócios — de uma vez por todas
Criatividade, inovação, pensar fora da caixa e outros termos da moda viraram palavras de ordem nas empresas. Mas falar e exigir é mais fácil do que trabalhar e criar uma cultura corporativa onde as pessoas possam se manifestar sem receio de represálias — o que é apenas um começo. A criatividade, mesmo desejada, é desestimulada e esmagada pelas demandas do cotidiano.
Isso ocorre, em parte por conta de desconhecimento acerca do conceito. Muitos gestores não sabem exatamente o que procuram quando exigem criatividade das suas equipes — possivelmente uma solução iluminada que resolva boa parte de seus problemas e atraia lucros. Não é bem assim que funciona.
Para que a criatividade possa ser levada a sério no cotidiano das empresas, alguns mitos precisam ser desconstruídos. Confira abaixo os cinco principais.
1. Apenas gênios podem ser criativos
O mito romântico da genialidade ainda parece permear o imaginário das pessoas. Cultuamos personalidades como Leonardo da Vinci, Pablo Picasso e Salvador Dalí e pensamos que as empresas precisam de gênios como eles. Mas esquecemos que todos esses artistas são fruto de sua época e viveram e produziram conforme as demandas contemporâneas.
Um exemplo claro é a carta — hoje seria chamada de currículo — endereçada ao Duque de Milão, onde Leonardo Da Vinci propõe uma série de soluções para problemas cotidianos baseadas na sua capacidade. “Eu faço uma espécie de ponte extremamente leve e forte”; “eu sei como, quando um lugar está sitiado, levar água para fora das trincheiras”; “eu tenho métodos para destruir cada pedra ou outras fortalezas, mesmo que elas tenham sido fundadas em uma rocha”.
São basicamente conhecimentos adquiridos e aplicados. Algo que qualquer pessoa, em perfeitas condições físicas e mentais, com acesso à informação, pode fazer sem dificuldade. “Criatividade é o processo de tornar-se sensível a problemas, deficiências, lacunas no conhecimento, desarmonia; identificar a dificuldade, buscar soluções, formulando hipóteses a respeito das deficiências; e, finalmente, comunicar resultados”, define a pesquisadora e psicóloga Eunice Alencar no livro Criatividade.
A criatividade artística renascentista muitas vezes é louvada, mas seu caráter pragmático é esquecido. “Os artistas sempre trabalharam ‘sob encomenda’ e com prazos de entrega”, lembra o pensador Domenico de Masi em O ócio criativo. “A criatividade deles muitas vezes se atiçava com a ideia de desafiar esses limites. Os grandes artistas do renascimento recebiam instruções muito precisas por parte de quem lhes encomendava a obra”, conta. Para de Masi, a diferença entre um trabalho criativo e um trabalho burocrático é a maneira como as regras são encaradas: no primeiro caso, como um desafio; no segundo, como limites.
2. Inovação e criatividade são a mesma coisa
Inovar é imperativo nas empresas, especialmente porque hoje não é possível manter o crescimento e superar a concorrência sem inovação. Assim como ocorre com a criatividade, seu conceito tornou-se um pouco nebuloso em virtude da sua disseminação indiscriminada. Alguns acham que inovar é simplesmente criar novos produtos. Ou que inovação e criatividade são a mesma coisa. Não é bem assim.
A inovação acontece quando algum elemento novo é introduzido no produto final ou nas rotinas da empresa, de modo a gerar maior valor econômico. Seu resultado depende, em parte, da criatividade. Criação é efeito, criatividade sua causa.
No entanto, não são termos sinônimos nem devem ser tratados como tal. O processo para o desenvolvimento de uma equipe onde a criatividade é um valor fundamental é diferente dos processos de inovação, cada qual com um propósito específico.
3. Criatividade é assunto estritamente individual
Tanto especialistas da área de educação quanto da área de negócios entendem que a criatividade não brota e se desenvolve sozinha na mente do indivíduo — algo que Aristóteles elucidou há alguns milhares de anos em sua Poética. Fazer parte de um ambiente que estimule a criatividade e estar na companhia de pessoas que reforcem esse traço são fatores que exercem papel fundamental no comportamento das pessoas. A criatividade tem um componente social. E nesse aspecto consistem os maiores problemas relacionados ao comportamento criativo.
A psicóloga e professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Argentina Rosas aponta que os três principais ambientes de formação individual — família, escola e trabalho — por vezes atuam com a intenção de inibir a criatividade em nome da estabilidade social. Porém, de maneira contraditória, exigem das pessoas que elas sejam criativas, sobretudo em momentos de crise. Não é raro que verdadeiros talentos sejam penalizados por agirem de maneira diferente ou se destacarem.
“Falar de criatividade tomou-se modismo. O termo vem assumindo uma dimensão mágica, principalmente nos meios de comunicação de massa. Contudo, não nos iludamos. Ainda estamos longe de observar aqueles meios de socialização — família, escola, trabalho — cultivando a criatividade, a fecundidade imaginativa, a reflexão crítica, a intuição”, alerta Rosas.
Jean Piaget, um dos maiores pensadores do século 20 e entusiasta do desenvolvimento da cognição infantil, destacou o papel da coletividade na formação de pessoas criativas. “A principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo que a elas se propõe”, escreveu no livro O nascimento da inteligência na criança.
Durante a fase adulta, quando já atuam em ambientes de trabalho geralmente burocráticos, as pessoas têm condições de pensar de maneira criativa, mesmo após anos de conformação familiar e escolar. Se o ambiente, a direção e os colegas fornecem a liberdade necessária e reconhecem o esforço na concepção de novas ideias, a criatividade individual é beneficiada.
4. Uma empresa ou equipe deve ter os “criadores” e os “executadores” em ordem hierárquica
Essa é uma noção possivelmente oriunda da Revolução Industrial de 200 anos atrás. A cultura corporativa que determina a alguns funcionários que eles “não são pagos para pensar, mas para fazer” não ajuda muito. E tudo isso está redondamente equivocado.
Conforme já foi dito, a criatividade é uma capacidade inerente das pessoas. As soluções mais criativas podem vir de qualquer lugar, inclusive das pessoas que executam atividades de nível operacional. Delegar o trabalho de pensar apenas aos executivos e gerentes é desperdiçar o potencial latente da própria empresa.
Em outras palavras, uma companhia com esse pensamento não irá resistir à concorrência. Todas as pessoas são criativas, embora nem todas tenham o mesmo potencial; é trabalho da empresa garantir que essa criatividade se transforme em um ativo.
“A criatividade não é totalmente maleável – a personalidade estabelece certos limites – mas pode ser cultivada por meio de intervenções deliberadas, especialmente por períodos longos de tempo. Estudos genéticos sugerem que os genes determinam cerca de 10% da variabilidade do potencial criativo, portanto há muito espaço para desenvolvimento”, afirma Tomas Chamorro-Premuzic, professor de Psicologia aplicada aos negócios da University College London.
No entanto, o professor também alerta que ter pessoas com o mesmo perfil criativo em uma equipe ou empresa pode ser prejudicial. “Embora geradores de ideias sejam essenciais para qualquer equipe criativa, suas ideias só serão implementadas se a equipe também contar com pessoas que amem execução, pensem de forma pragmática, sejam atentas aos detalhes e ajudem a transformar ideias criativas em verdadeiras inovações”, explica.
5. Criatividade não guarda qualquer relação com a cultura empresarial
“O cotidiano em um ambiente de trabalho está essencialmente relacionado ao engajamento dos funcionários, que influencia fortemente a criatividade e a produtividade”, explica a psicóloga e pesquisadora Teresa Amabile em uma palestra no TED.
Ao relacionar três fatores indissociáveis — engajamento, criatividade e produtividade –, a psicóloga conclui que essa é a força motriz da performance. Portanto, ter funcionários criativos é fundamental para que uma empresa consiga gerar valor para clientes, sócios e acionistas. A busca dessa valor, no entanto, não deve se dar apenas no âmbito da contratação. Assim como o engajamento e a produtividade, a criatividade pode ser estimulada.
“O pensamento criativo refere-se a como as pessoas abordam os problemas e propõem soluções — a capacidade delas de criar novas combinações com ideias que já existem”, explica a psicóloga em um artigo publicado na Harvard Business Review.
Fonte: www.administradores.com.br

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