Florença, o berço do Renascimento

Florença, para mim, tem um viés muito emocional.

Uma biografia de Michelangelo foi parar em minhas mãos quando eu tinha quatorze anos de idade. Um livro de muitas páginas, para adultos lerem, mas que me arrebatou. Foi quando começou minha paixão pelo artista, pelo Renascimento e por Florença.

Final de tarde na lindíssima Florença! (Fonte: Mônica Sayão)

Apesar de adolescente, entendi claramente a oposição do Renascimento ao período anterior, o Gótico, que produziu catedrais espetaculares, com suas torres pontiagudas e vitrais maravilhosos, mas que sempre me deram a impressão de “temor a Deus”.

O Renascimento trouxe o Homem para o centro da Criação, valorizando a Razão e diminuindo o dogmatismo religioso sobre a sociedade. A transformação foi rápida: o antigo sistema feudal deu lugar ao capitalismo. Como consequência, houve uma série de mudanças econômicas, sociais e políticas. E nas artes, ciências e filosofia houve um renascimento baseado na Grécia Antiga. Aliás, essa é a origem do nome desse período, que aconteceu durante os séculos XV e XVI.

Foi depois de conhecer a Florença de Michelangelo que passei a ter certeza que queria ser arquiteta. E assim aconteceu.

Florença foi o berço do Renascimento italiano. Não posso deixar de mencionar Siena, claro, sua arqui-inimiga, e também muito importante nesse período das artes.

Florença é especial: com cerca de 380 mil habitantes, rodeada por colinas verdejantes, cortada pelo rio Arno com suas pontes antigas, a cidade é um museu a céu aberto. Tudo é lindo, encantador, e por mais que a gente já conheça, é ótimo retornar.

E não podemos esquecer que ela é a capital da Toscana, a região mais linda e poética da Itália. Combinação perfeita!

Principais atrativos:

1) Duomo, Campanário, Batistério e Museu do Duomo:

Começo pelo Duomo (Catedral de Santa Maria dei Fiori) que é um dos grandes destaques da cidade. Inaugurada no século XV, tem como destaques sua enorme e elegante cúpula, projetada por Fillippo Brunellescchi, e suas fachadas num fantástico mosaico de mármores verde, rosa e branco.
Acompanhada pelo Campanário de Giotto, e pelo Batistério de São João Batista, formam um conjunto de impacto imediato e paixão eterna.

O Duomo ao centro, com o Campanário à direita e o Batistério à esquerda. E a cúpula de Brunelleschi ao fundo. Imagem inesquecível.
(Fonte: Mônica Sayão)
Duomo e Campanário vistos de outro ângulo, com a multidão de turistas que se aglomeram no seu entorno.
Proporção esplêndida da fachada. (Fonte: Mônica Sayão)
A cúpula de Brunelleschi é uma obra-prima de arquitetura.
(Fonte: Mônica Sayão)

O Batistério de São João tem planta baixa octogonal e fachadas em mármore verde e branco. Considerado o monumento mais antigo de Florença, existe como batistério desde o século XII e lá foram batizados ilustres florentinos, como Danti Alighieri e membros da família Médici. Sobre essa família falarei mais adiante.

Seu interior é muito bonito e sua cúpula é espetacular, toda revestida de mosaicos dourados, com o tema do Juízo Final.

O revestimento interno da cúpula do Batistério é impressionante.
(Fonte: Mônica Sayão)

O maior atrativo do Batistério é, sem dúvida, a Porta Leste, localizada em frente à porta principal da Catedral, na Piazza del Duomo.

Projetada e executada por Lorenzo Ghiberti, que anteriormente já havia feito a Porta Norte, a Porta Leste tem como tema o Velho Testamento. Feita em bronze, no século XV, foi chamada por Michelangelo de “Portas do Paraíso”. Se o visitante pretender tirar uma foto sem ninguém ao lado, chegue cedo, como fiz na imagem abaixo. Eram 8h da manhã!

Porta Leste do Batistério de São João. (Fonte: Mônica Sayão)

Hoje os originais dos três conjuntos de portas do Batistério (Leste, Norte e Sul) encontram-se expostos no Museu do Duomo (Museo dell’Opera del Duomo) logo atrás da Catedral. Protegidas por vidros e sem o desgaste se ainda estivessem no local original.

Recomendo muito a visita ao Museu do Duomo. São três andares com um acervo maravilhoso.

A Porta Leste original está no Museu do Duomo: protegida por vidro.
(Fonte: Mônica Sayão)
Museu do Duomo. (Fonte: Mônica Sayão)
Museu do Duomo. (Fonte: Mônica Sayão)

2) Piazza della Signoria:

Era e ainda é o coração de Florença. Localizada entre a Piazza del Duomo e o rio Arno, tem, geograficamente, posição central quanto às atrações turísticas da cidade. É muito animada, sempre com muita gente circulando ou sentada nos seus cafés e restaurantes. Sem contar com artistas fazendo apresentações. Sentada num desses cafés não é difícil se transportar para outra época e imaginar como era a vida séculos atrás.

O monumento mais importante e característico da praça é o Palazzo Vecchio, antiga residência da poderosa família Médici. Hoje abriga a prefeitura da cidade.

Destaco também a estátua equestre de Cosimo I (Cosme I), grande personagem da família Médici. E também a Fonte de Netuno e uma cópia da estátua de David, de Michelangelo.

Palazzo Vecchio, na Piazza della Signoria. (Fonte: Mônica Sayão)
Estátua de Cosimo I, mais uma figura de destaque dos Médici.
(Fonte: Mônica Sayão)
Fonte de Netuno, próxima do Palazzo Vecchio.
(Fonte: Mônica Sayão)

3) Capela dos Médici:

Chegou a hora de falar sobre os Médici. Eles foram uma família de ricos banqueiros e comerciantes florentinos, que dominaram a vida política e social de Florença principalmente nos séculos XV e XVI. A tal ponto que estenderam seu domínio inclusive por toda a região da Toscana. Além do poder político, a família Médici foi incentivadora das artes e arquitetura. Destaco sem dúvida, a importância de Lorenzo de Médici, grande mecenas e patrocinador de artistas como Michelangelo e Leonardo da Vinci. Ficou conhecido como Lorenzo, o Magnífico.

Não posso deixar de mencionar que da família Médici saíram vários Papas e também duas rainhas francesas: Catarina e Maria. Assim o poder deles se estendeu à Roma e à França.

A Capela dos Médici está unida à Basílica de San Lorenzo, e foi concebida para ser o mausoléu da família no século XV. Ela é composta por dois espaços: a Sacristia Nova e a Sala dos Príncipes com a cripta no subsolo. Hoje a entrada à Capela dos Médici é feita pela rua, já que pertence ao Estado italiano.

Basílica de San Lorenzo, com a Capela dos Médici ao fundo.
(Fonte: Mônica Sayão)
Interior da Capela dos Príncipes. (Fonte: Mônica Sayão)
Mais da Capela dos Príncipes: beleza digna de família tão incentivadora das artes. (Fonte: Mônica Sayão)

4) Galeria degli Uffizi (Galeria dos Ofícios) é hoje um dos mais importantes museus da Itália e do mundo. Seu acervo de pinturas dos grandes mestres merece todo o esforço para ser visitado.

Historicamente, o Uffizi foi construído por Cosimo I de Medici, no século XVI, com o propósito de juntar num amplo espaço magistrados, mercadores, e outras pessoas que tinham cargos no governo de Florença, para seu maior controle.

Galerias envidraçadas do Ufizzi: no fundo desse corredor está o rio Arno. (Fonte: Mônica Sayão)
Muitas salas e em enorme acervo em ordem cronológica.
(Fonte: Mônica Sayão)
Um dos destaques do Ufizzi é o quadro Nascimento da Vênus, de Botticelli.
(Fonte: Mônica Sayão)

5) Basílica de Santa Croce (Basílica de Santa Cruz):

Ela é uma das mais importantes e antigas basílicas franciscanas do mundo. Além disso, lá estão enterrados vários gênios italianos como Michelangelo (sempre ele), Galileo Galilei, Maquiavel e Rossini.

Seu interior impressiona. Possui dezesseis capelas, algumas decoradas com afrescos de Giotto e seus discípulos.

A Basílica possui dois claustros lado a lado: um em forma quadrada e outro em forma retangular, onde está a Capela Pazzi, inaugurada em 1443 e projetada por Brunelleschi. Esta capela é considerada uma das joias do Renascimento.

Fachada da Basílica de Santa Croce. (Fonte: Mônica Sayão)
Interior da Basílica de Santa Croce (Fonte: Mônica Sayão)
Um dos claustros da Basílica de Santa Croce. (Fonte: Mônica Sayão)

6) Galleria dell”Accademia (Academia de Belas Artes):

Se a gente puder definir com uma pequena frase o que é a Accademia eu diria: “é lá que está o Davi de Michelangelo original”. E é lá mesmo e por isso muito gente vai visitá-la. Mas há muito mais para ser apreciado inclusive obras inacabadas de Michelangelo, como as estátuas dos quatro escravos encomendadas pelo Papa Julio II para seu túmulo. Durante longos 40 anos Michelangelo fez seis versões diferentes das estátuas que não foram aprovadas pelo pontífice. Há também uma Pietá conhecida como a Pietá de Palestrina, uma das quatro feitas pelo artista.

Há um setor de instrumentos musicais da família Medici, que é muito interessante. E outro setor de quadros de pintores italianos do período entre 1.200 a 1.500.

É um museu pequeno e recomendo muito ser visitado.

Davi: perfeição! (Fonte: Mônica Sayão)

8) Ponte Vecchio:

A atual Ponte Vecchio foi construída em 1345, com projeto de Giorgio Vasari, para substituir outras que acabavam sendo destruídas pelas constantes cheias do rio Arno. As pontes anteriores eram frágeis porque eram construídas com madeira.

A Ponte Vecchio era ocupada por açougueiros para que a higiene pública da cidade fosse preservada. Em 1595 a ponte passou a ser ocupada por joalherias por determinação de Ferdinando I, incomodado com o mau cheiro dos açougues. Viva ele!

Um dos cartões postais da cidade, a Ponte Vecchio é linda de vários ângulos da cidade.

Ponte Vecchio vista da Piazzale Michelangelo. (Fonte: Mônica Sayão)
Ponte Vecchio vista através de uma janela fechada da Galeria degli Uffizi.
(Fonte: Mônica Sayão)
Ponte Vecchio vista com zoom de outra ponte próxima.
(Fonte: Mônica Sayão)

9) Piazzale Michelangelo:

Esse é o meu lugar favorito de Florença. Meu e de meio mundo que gosta de apreciar uma bela paisagem. Pois é desta singela praça, com outra cópia do Davi de Michelangelo no centro, que se descortina a cidade por inteiro, já que a praça está numa colina.

Piazzale Michelangelo. (Fonte: Mônica Sayão)
As vistas mais bonitas de Florença são a partir da Piazzale Michelangelo.
(Fonte: Mônica Sayão)

O que muitos não sabem é que, um pouco acima da praça, encontra-se a Igreja de San Miniato al Monte, rodeada por ciprestes e com uma vista igualmente maravilhosa da cidade. A dica é pegar um táxi do centro até a San Miniato, visitá-la e depois descer a pé até a Piazzale Michelangelo. É uma descida bem agradável, parece que se está fora da cidade.

Igreja de San Miniato al Monte: uma adorável surpresa, um pouco acima da Piazzale Michelangelo. (Fonte: Mônica Sayão)
Interior da San Miniato também impressiona. (Fonte: Mônica Sayão)

10) Flanar pela cidade:

Por último recomendo sempre flanar por qualquer cidade que se visite. Em especial em Florença, onde há inúmeros atrativos. De repente você pode dar de cara com uma “esquina” como a da imagem abaixo. Puro prazer!

Preciosidades que são descobertas ao acaso ao longo de uma boa caminhada!
(Fonte: Mônica Sayão)

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4 Comentários

  • LEILA MARIA PEREIRA VIEIRA , 12 de junho de 2021 @ 12:47

    Florença, Firenze em italiano, tão bem descrita fica difícil acrescentar qualquer coisa, mas ouso dizer de um museu que gosto muito Bargello, onde se encontra o David de Donatello. Foi uma viagem agradabilíssima e que evidentemente retornaria.

  • Mônica Sayão , 19 de junho de 2021 @ 18:57

    Leila querida!

    Muito obrigada pelo carinho de sempre.

    É sempre muito bom voltar a Florença, mesmo que seja através de texto e fotos.

    Da próxima vez visitarei o Bargello, que não conheço!

    Beijão
    Mônica

  • Edwiges Chiappetta Azevedo , 27 de junho de 2021 @ 17:43

    Oi Monica, é puro prazer rever, através de suas fotos e comentários essa linda e histórica cidade italiana, bjs

    • Mônica Sayão , 29 de junho de 2021 @ 11:23

      Edwiges querida!

      Tão bom rever nossa viagem! Florença é uma maravilha!!!

      Obrigada pelo carinho!
      Bjs
      Mônica

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