O Picolé de Chuchu

Cobiçado por PSD, PSB e até por Lula, Geraldo Alckmin pode até ficar no PSDB.

Tetra governador do estado de São Paulo e líder absoluto para retornar ao Palácio dos Bandeirantes de acordo com o Datafolha – tem 26% das intenções de voto contra 17% do petista Fernando Haddad -, Geraldo Alckmin é a noiva da vez. Seu nome aparece nas listas de desejos do PSD, PSB e até do PT de Lula. Mas sua aposta pode ainda estar no tucanato: registrou-se para votar nas prévias de hoje que definem o candidato do PSDB à Presidência da República e, dependendo do resultado, desfaz as malas que já estavam prontas para deixar a legenda.

Em franca oposição ao governador João Doria, tido como filho ingrato por alckmistas, o ex esteve ativo na campanha pró-Eduardo Leite. Teria, inclusive, conseguido algumas adesões de prefeitos saudosos, e, dizem, incentivado a cisão interna.

Discórdia intramuros não é novidade para o PSDB. Há tempos os tucanos se digladiam em infindáveis lutas fratricidas. Portanto, engana-se quem afirma que as prévias serão motivo para abrir fissuras e dissidências. Estão acostumados com isso. Desde os dois mandatos consecutivos de Fernando Henrique Cardoso, a cúpula que indicava os candidatos não apresentou nomes capazes de unir o partido. Não raro, até bambambãs abandonam o escolhido no meio do caminho. Aconteceu com José Serra e com o próprio Alckmin, que em 2018 viu seus pares debandarem em peso para Jair Bolsonaro, incluindo Doria e Leite.

Como de costume, Alckmin não corre riscos. Se Doria for derrotado, se cobrirá de louros, com chances reais de proclamar o “fico” e retomar as rédeas da legenda em São Paulo. Se o desafeto vencer, sua saída já anunciada e tão ambicionada por outras siglas se concretiza.

O PSD de Gilberto Kassab quer Alckmin no partido e na disputa ao governo. Ao contrário dos tucanos, o pessedista não guarda mágoas quando as chances de ocupação política são sólidas. Kassab era vice-prefeito quando José Serra se desincompatibilizou para disputar o governo do estado. Havia o compromisso do PSDB de apoiá-lo como candidato à sucessão de Serra, em 2008. Alckmin rompeu o acordo e disputou o pleito, estraçalhando o PSDB na capital. Kassab foi eleito, vencendo Marta Suplicy, à época candidata do PT. E Serra recolheu o ex-governador derrotado para a Prefeitura em uma secretaria de seu governo.

Dois anos depois, Alckmin voltou a atropelar tudo e todos para se tornar candidato ao Planalto. Uma aventura que custou caro a ele e ao PSDB. Terminou a disputa nanico, com 4,7% dos votos. Hoje, FHC e Serra estão com Doria.

A regional paulista do PSB também quer o ex-governador. Topa, inclusive, repetir a dobradinha vitoriosa Alckmin-Márcio França, mesmo com França colocado em terceiro lugar nas pesquisas, com nada desprezíveis 15%, tecnicamente empatado com Haddad.

Já os gestos de Lula na direção de Alckmin e do ex-governador ao petista são esperteza pura. De ambos. Com a conhecida caretice do “Picolé de Chuchu”, Lula quer mostrar que topa montar a chapa com um conservador, o que o tornaria mais palatável ao campo centrista. Já Alckmin, cujo sabor insosso que lhe é atribuído passa longe das guerras apimentadas que patrocina, aproveita-se da “lembrança” e se recoloca na política nacional, aumentando seu cacife para 2022.

A insólita aliança pode até causar rebuliço, mas as chances de a dobradinha Lula-Alckmin se concretizar são para lá de remotas. Além das resistências nas hostes petistas e alckmistas, há a questão regional. Montar uma chapa São Paulo-São Paulo é quase suicídio de que, dois mais dois somados, Lula não precisa. Na verdade, o ex-presidente continua à procura de uma mulher, preferencialmente fora do eixo Sul-Sudeste. Ou um perfil semelhante ao do empresário mineiro José Alencar. O filho de Alencar, Josué Gomes, eleito presidente da Fiesp, continua tendo lugar de destaque na lista dos possíveis vices.

Alckmin sabe que os gestos de sedução têm tempo limitado, mas não vê motivo para urgência. De olho nas prévias do PSDB, não adiou sua decisão à toa – o resultado de hoje pode jogar água fria nas conversas com o PSD e PSB. Embora legalmente proibidas, as campanhas nacionais há muito já estão nas ruas e os quadros regionais têm forte peso nelas. Ter um candidato a governador competitivo em São Paulo é imprescindível. É com esse trunfo que o ex joga.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 21/11/2021.

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