O bagre de Bolsonaro

Questões ambientais pouco frequentaram o programa de Bolsonaro

Jair Bolsonaro, presidente da República eleito, conversa com jornalista em frente ao Centro Cultura Banco do Brasil (CCBB), em Brasília (DF),
sede da equipe do governo de transição – 04/12/2018 (Adriano Machado/Reuters)

Com um time eclético que contentou muitos e desagradou outros tantos em proporções quase idênticas, Jair Bolsonaro chega à sua diplomação como presidente nesta segunda-feira, 10, com quase toda a equipe escalada. Resta apontar alguém para o Ministério do Meio-Ambiente, mais uma área em que o ex-capitão e boa parte dos seus tateiam com viseiras ideológicas.
Questões ambientais pouco frequentaram o programa de Bolsonaro, limitado a generalidades sobre a maior parte dos temas. O discurso do eleito também não foi muito além.
Sabe-se que ele desconfia do aquecimento global, unindo-se aos negacionistas climáticos, uma minoria de menos de 1% dos climatologistas, mas que ganhou força com a adesão de Donald Trump, de quem Bolsonaro é fã confesso. E não questionou as teses do futuro ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, para quem o combate à mudança climática é “perversão da esquerda”, marxismo puro.
Por ignorância ou má fé, Bolsonaro confunde a proposta do Triplo A – corredor ecológico que ligaria os Andes ao Atlântico – com o Acordo de Paris, do qual o Brasil é signatário e poderá deixar de sê-lo, alinhando-se com a ruptura unilateral feita pelos Estados Unidos de Trump. Motivo para que o eleito pedisse ao presidente Michel Temer que cancelasse o compromisso do Brasil de sediar a COP-25. Um vexame internacional.
Bolsonaro quer ainda acabar com “a farra das multas dadas pelo Ibama e pelo Instituto Chico Mendes” e a “mamata” das ONGs. Para a Amazônia, diz que fará, sem dizer como, preservação e exploração econômica, adiantando o apoio à construção de novas usinas hidrelétricas na região. E pretende acelerar o licenciamento ambiental, que seria um impeditivo para o desenvolvimento regional e nacional.
Nisso, o pensamento de Bolsonaro não se difere do de Lula. O ex fez de tudo para agilizar o licenciamento ambiental para construção das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, que não obtiveram aval do Ibama devido à necessidade de preservação da saúde do Rio Madeira e das populações ribeirinhas. Lula esperneou, esbravejou, pressionou: “Agora não pode por causa do bagre, jogaram o bagre no colo do presidente. O que eu tenho com isso?”
As usinas do complexo Madeira foram erguidas com licenças provisórias. A interferência direta de Lula azedou de vez as relações com a então ministra Marina Silva, que pouco depois se demitiu. À época, ainda não tinham vindo à tona as transações nada republicanas do ex com as empreiteiras Camargo Corrêa e Odebrecht, metidas nas obras. Tudo parecia apenas desavenças entre desenvolvimentistas e ambientalistas.
O caminho do ilícito não parece ser o de Bolsonaro, mas ele comete o mesmo erro de Lula ao prometer hidrelétricas antecipando-se às análises e julgamento de técnicos ambientais. E o faz partindo da premissa de que preservação, cuidados com os biomas, sustentabilidade, controles climáticos e de poluição integram a pauta progressista. Coisa da esquerda, corrente do diabo que ele prometeu derrubar.
Com uma estrutura de 22 ministérios, sete a mais do que anunciou durante a campanha, Bolsonaro admitiu que está difícil encontrar alguém que comungue de suas ideias para o meio-ambiente. O bagre do futuro presidente é ideológico.
Fonte: Blog do Noblat – Veja Abril

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