21 de maio de 2022
Colunistas Ligia Cruz

Mãos que me afagavam

O Alzheimer não foi capaz de destruir este elo, quase até o fim.

Eu entregava minha face no meio delas, beijava seus dedinhos e ela ria divertida. Um momento único que estará eternizado em mim aonde eu for.

Neste dia de azul céu eu vi uma criança admirando suas mãos como se nunca as tivesse visto.

Um espelho pequeno fazia ela explorar ângulos e admirar seus cabelos brancos cortados à la garçon.

Ela colocava todas as suas presilhas nele para segurar os fios rebeldes que insistiam em espetar.

Eu me lembro de meu pai dizendo: “menina você tem o cabelo ruim igual à sua mãe”.

Ela passou toda sua vida com ele fazendo permanente para ondulá-los. E eu me entregava aos bobes para corrigir falha tão grande.

Nos libertamos quando ele se foi. Assumimos nossa palha esticada, difícil de ajeitar. Algo que poderia se resolver sem o peso das saudades. Mas a vida é intrincada mesmo, com suas filigranas.

Não há um dia sequer que eu não sinta saudades dela.

Já sem tanta dor, mas com um carinho profundo que me traz ao presente o cheiro de sua pele, as piadinhas que ela fazia durante o banho, coisas bem de meninas mesmo.

É triste quem não tem memórias, porque elas nos tornam plenas e doces.

Nos próximos dias serão três anos dessa ausência tão cortante.

Mas nada disso é triste. Ao contrário, me enche de amor e saudades.

Por isso eu sempre digo: quem ainda tem sua mãe por perto deve se entregar a todos os momentos, como se não houvesse amanhã.

Ame sem trégua, sem qualquer ressentimento. Apenas ame.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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