14 de abril de 2024
Colunistas Ligia Cruz

Cadê a palavra?

Ultimamente, muitas pessoas têm se queixado de problemas comuns vividos nos quatro cantos do mundo. Será efeito do covid-19, que tem afetado as pessoas de diferentes maneiras? O que colocaram na nossa sopa? Os produtos chineses vendidos aqui e ali estão impregnados de substâncias contaminantes para dominar o mundo? Cada um interpreta à sua maneira e com seu grau de loucura.

Muitos definem como um tipo de terrorismo elevado às últimas consequências. Uma intriga com ingredientes requintados e explosivos de uma segunda doença, a da paranoia. Estamos todos paranoicos, com a mente processando em uma frequência muito acima do que a de costume.

A capacidade de pensar o caos em nosso tempo promete versões muito criativas nos próximos tempos. Até que consigamos nos desgarrar desse maldito coronavírus e tudo que veio junto com ele no pacote.

O que as pessoas mais têm se queixado é de um tipo de “tilt”, bem corriqueiro, em todas as conversas. Talvez, uma espécie de mecanismo de defesa que subtrai verbetes e provoca uma sensação de confusão mental.

Tudo começa com o “esquecimento” de uma palavra que deveria explicar algo que está sendo dito, mas não acontece. Não é “coisa de velho”, mas um tipo de blecaute mental que acontece normalmente com todos nós, independentemente da idade.


Esse esquecimento sabotador é na verdade o pano de fundo de algo maior que está afetando o indivíduo e, no caso, toda humanidade. De repente a pessoa interrompe o discurso e diz que não está encontrando a palavra certa para se expressar ou o nome adequado para definir o que está tentando dizer.

Esse fenômeno é comum nos diálogos e se destaca no calor de qualquer conversa. Pessoas de diferentes idades têm sido pegas mais frequentemente por essa supressão instantânea de palavras. O interlocutor vitimado por esse tipo de evento linguístico demonstra frustração por não liberar aquela que está, por um triz, presa na ponta da língua. A sensação é de frustração.

Isso acontece quando há uma preocupação latente, muito maior, que permanece como pano de fundo na mente, com prioridade acima de uma simples conversa.

Alguns grandes pensadores da história contemporânea, como Sigmund Freud, em suas maravilhosas Obras Completas, fez um estudo para decifrar os meandros cerebrais e como surgem esses eventos.

Além dele, para falar somente de nosso tempo, Carl Jung também explicou que isso acontece porque o cérebro humano atua de forma associativa. Vincula os fatos, tornando comum esquecer temporariamente de palavras, quando há algum tipo de bloqueio.

Em uma versão bem-humorada, o escritor Mário Quintana, em seu livro “A vaca e o hipogrifo”, brinca de perseguir uma inspiração que não se realiza. É óbvio que ele também leu Freud porque em dado momento ele chama a inspiração para ser inserida em suas “obras completas”, como se fosse um ente que teimava em não “dar as caras”. Ele a chama, chama e ela não vem. E ele desiste: “vaca escafedeu-se”. Só uma mente genial é capaz de brincar com algo assim e terminar com xingamento. Uma brincadeira, na verdade.

Os idosos se sentem muito desconfortáveis ao admitir que estão ficando caducos. Até porque esquecer é sinônimo de Alzheimer, tudo agora é coisa do “alemão”. E há o medo de perder a autonomia e passar seus últimos dias longe do convívio familiar, em alguma casa de repouso.

Esse esquecimento súbito em nossos diálogos é a confirmação de que o indivíduo está acometido sobre intenso estresse. E quem não está em nossos dias?

Sem medo de errar, o tema pandemia está batendo tão pesado em nossas mentes que não sobra espaço para abstrair. Tudo está tão enfadonho, que dá preguiça de falar porque certamente vai se apresentar algum esquecimento.

Nosso cérebro tem se tornado um processador cada vez mais rápido na formação de conexões, como os computadores mais ágeis, feitos para pensar por nós. Hoje é preciso se inscrever em dezenas de aplicativos, para comer, comprar, administrar, conversar e criar senhas para cada coisa e se lembrar de todas elas. O que aparece fora da curva e se sobrepõe em qualquer assunto é o coronavírus-19 e tudo o que ele acarreta.

Talvez, quando a humanidade se livrar desse vírus e despertar para nova realidade, tenhamos momentos de paz. Além das palavras que se “escondem”, poderemos ver com clareza toda a manobra que está sendo feita em seu nome, em todos os níveis.

Ante disso, para aliviar esse quadro caótico, o jeito é fazer algo lúdico e que envolva corpo e mente. E que ninguém se cobre pelos seus esquecimentos porque é o que ocorre em experiências traumáticas, como a que estamos vivendo. Uma guerra que só nossos antepassados viveram.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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