Máscara?

Pensa num barraco…

Entro no consultório médico às 9:25h.Detesto hora marcada quando o galo canta.

E a agenda sempre começa bem mais cedo.

Na porta de entrada o aviso “desde o dia 1° de Junho naquela “Landkreis” (microrregiões dentro de um Estado ) é necessário o uso de máscara nos consultórios.

Subo o cachecol e fico pensando: não tem um único caso desse vírus em toda essa região que tem 400 mil habitantes e faz fronteira com a Áustria e a Suíça.

Para muitos a regra é descumprir a ordem de usar a focinheira.

Mas há sempre as ovelhas. Azar delas. Resista!

“Guten morgen!” , falo para a secretária atrás do balcão lá na frente. “Coloque já a máscara!” – responde a gorda com raiz preta naquele cabelo pintado de louro canário adoentado.

– A exigência é cobrir o nariz e a boca, respondo.

– Coloque já a máscara! – a baleia retruca levantando- se da cadeira com dedinho em riste balançando e quase pulando o balcão.

– Não uso máscara.

– A ordem é da médica, faça isso já! – diz bem alto a “Orca”.

– Qual a razão? Não há outros pacientes.

– Eu, eu! A razão sou eu que trabalho aqui. As gotículas vão respingar em mim.

A baleia alucinada ficou um pouco assustada quando arrumei aquela confusão entre os celulares, mas saquei um do bolso do casaco e apontei pra ela:

– Halloooooo! – comecei com Dó e passei por toda a escala musical – Quantos metros há entre nós? Distanciamento social ideal.

Tenho problemas respiratórios – continuei – que se agravam quando fico nervosa. Vou repetir: naaaaão vou colocar máscara.

(Essa é a regra usada – atestado médico para não se usar nada que cubra as vias respiratórias ou colocar uma bandana, lenço e mesmo se colocar máscara, nunca deixar o nariz coberto, só se aparecer a fiscalização).

– Mas, mas… coloque já a máscara! diz em estado de agitação a libélula em peso arroba.

– Pois informo que vou começar a gravar se você insistir em me intimidar e vou ligar para a polícia em seguida.

Fui para a sala de espera.

Nesse momento, aparece a médica lambisgoia anoréxica e me diz que se eu não colocasse a máscara deveria sair do consultório. A Orca atrás do balcão levanta da cadeira e lá vem o dedinho em riste balançando: “corro o risco dela jogar gotículas virais em mim”.

Nem São Lucas ou São Pantaleão, patronos da medicina pra dar jeito.

Baixou foi a Santa Paciência em mim. Imagine, nem mandei as duas pra Katmandu sem escala.Levantei da cadeira:

Gotículas? A médica disse isso a você? Se ela disse, além da polícia vou tomar outras providências…

As duas ovelhas dementes, gorda e magra, chacoalhavam dilmosamente.

– não, ela está nervosa, disse a médica lambisgoia. Ela não entendeu o que você disse.

Se você tem problemas respiratórios a situação é outra.

– Waaaaas? (O quê?)

Ela não entendeu o meu alemão?

What the hell is it going on here?

– Ela ficou nervosa, porque você não obedeceu quando ela mandou colocar a máscara e não ouviu a sua justificativa.

“Obedeceu”? “Mandou”? Você é de que planeta, doutora?

Arranquei o cachecol e amarrei na cabeça, tipo paz e amor.

É para colocar máscara? Como é que você vai examinar o ponto vermelho marxista que apareceu perto da minha boca? Com distanciamento social? Vai checar pela sola do pé ou pela bunda? Eu disse bem sorridente.

A médica magricela com perninhas finas e calça branca apertadinha à la Dória, estilo enfiadinha no toba, pede para eu acompanhá-la.

Bem, consulta encerrada.

Nada sério.

Yo no creo en brujas pero que las hay, las hay

… Y la libertad no se negocia

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *