Inverno


Esse mito de que as pessoas são mais elegantes no frio é só isso mesmo: um mito.
Há uns anos, fui a Curitiba, cidade que amo, em julho, e o que mais vi foi cosplay de homeless nas ruas:
gentes se cobrindo com camadas e mais camadas de todo tipo de pano tentando se defender do ataque daquele bicho feroz que os curitibanos chamam de Inverno.
E no Rio? No Rio, quando calha de bater 21 graus, é um desespero: toca dos cariocas tirarmos as japonas do armário, as moças a poeira das botas e sair todo mundo a suar na rua pra aproveitar o “frio”.
(Para ser justo, uma vez estava em Nova York no fim do Outono e vi uma menina trajando, altiva e altaneira, um COBERTOR na loja da Disney da Time Square.)
Ou seja: o Inverno nos faz mais elegantes? Papo furado. Bullshit.
Isto posto, o que que o Inverno tem?
Além das doçuras mais óbvias, o aconchego ao que amamos, o chocolate, o vinho, o café passado na hora, o Inverno tem luz.
É. Luz.
Já puseram reparo no céu em julho? O azul é incomparável, denso, profundo, cobalto. Chega a ser covardia com o azul desmaiado de janeiro.
Mas não é só o azul: as cores todas ganham mais realce, nitidez, vida, no inverno.
É como se o Criador usasse de um Photoshop cósmico para ajustar a paleta de tons, tornando tudo mais intenso e vivaz.
Uma das lembranças mais doces da minha infância no Rio é das manhãs de Inverno: o sol gentil pedindo licença para entrar no quarto, a minha colcha velha de chenile ou cheline, eu nunca sei, e eu apenas ocupado em viver.
Eu não tinha nada, absolutamente nada, mas era o feliz possuidor de tudo que realmente valia a pena:
Uma cama onde me abrigar, um velho cobertor e o sol sutil de um alvorecer dourado em julho.
Com sorte, teria uma caneca de chocolate quente Moinho de Ouro quando levantasse.
Com sorte.
Mas até isso podia esperar.
A luz de uma manhã dourada de Inverno me segue até hoje.

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