Guimarães, Gandalf e Gershwin

Imagem: Google – Notícias Uol

Sou nascido e criado no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro. Para os não versados na geopolítica carioca, o C. A. se estende desde a região do Morro do Adeus, entre Bonsucesso e Ramos, até a Penha – tem uma igreja linda lá, se estivesse na zona sul seria famosa no mundo todo, viu?

Escapei do destino comum da pivetada da minha época – por um triz, bom que se diga. Quando adolescente, quem me salvou foi um professor. Acho que já contei essa história aqui.

Outro fator que me fez abandonar a condição que levou muitos dos meus vizinhos da mesma idade foi crescer em uma casa com muitos livros. Muitos.

Havia em casa um armário repleto de livros escolares e paradidáticos antigos – e, por paradidáticos entenda-se o que era usado em apoio aos livros didáticos, não esse guano de morcego em forma de livro que usam nas escolas hoje, mas sim coisa fina, sinhá, que ninguém mais acha:

Muito Machado e Alencar, muito Érico Veríssimo – Deus, “Música ao Longe” é, até hoje, uma das obras mais delicadas da língua portuguesa! – muito Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, coisas que me aguentam o coração só de lembrar! Quanta arte genuinamente BOA o Brasil já construiu, dá até dó entrar numa livraria hoje.

Para piorar – ou melhorar – minha mãe tinha um “bico” para ajudar a fechar os boletos do mês: trabalhava no Círculo do Livro.

Uma empresa que republicava obras, de maior ou menor grandeza, com um sistema de vendas de pagamento mensal, tipo um Clube do Livro. Tinha uma revistinha com os lançamentos do mês e todo o catálogo. Minha mãe era a moça que recolhia os pedidos dos assinantes e levava os livros até eles. Quase uma consultora Avon literária.

Como minha mãe era – é ainda – uma leitora voraz, acho que uma boa parte do seu salário voltava para a empresa – mais ou menos como entregar o gerenciamento de um bar a um bêbado contumaz.

Eu ficava aguardando ansioso a chegada das imensas caixas de papelão lotadas de livros – que seriam, alguns distribuídos, outros lidos em casa, mesmo, após serem apressadamente libertos dos seus invólucros de plástico pelos meus dedos ansiosos de jovem amante.

Outros tempos, quase que perdidos no Cretáceo Superior, junto com, sei lá, trilobitas e diplodocos.

O Círculo do Livro não existe mais. Nem a Mesbla, presente nessas minhas recordações de guri, nem o chocolate Kri, o guaraná caçulinha e a Enciclopédia Conhecer.

Não existem mais enciclopédias.

Sobram essas lembranças, que me fazem proferir um silencioso agradecimento aos livros da minha vida, que me mantém em casa, por exemplo, nesse domingo de carnaval – e tudo que veio no curso do seu rio: música, cinema, teatro…

Que saco, dirão alguns, inebriados de samba, suor e cerveja.

Eu digo, que sorte, bêbado de Guimarães, Gershwin e Gandalf.

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