A rainha da dança

Foto: Agnetha Faltskog, uma das vocalistas do Abba, aos 18 anos

Ela chegou em casa. Jogou os tênis para o lado, distraída. Tirou as meias enquanto caminhava, em um gesto gracioso que repetia desde, sei lá, dezessete?

Enfiou a roupa toda na máquina, e trotou, nua, para o banheiro.

O banho foi rápido – já eram quase dez da noite, quase na hora de “Succession”.

Ela vestiu a “roupa de pedinte”, como sua mãe jocosamente tinha apelidado: calcinha de algodão e blusa de alças com estampa já quase indefinível pelo tempo.

Pegou o celular. Vasculhou as notícias.

“Gente, só coisa ruim…”, pensou. Até que uma chamou sua atenção:“O grupo Abba se reúne após 40 anos e vai fazer show virtual.”Abba? Será que era uma banda de heavy metal?, pensou, se divertindo ao imaginar aquela humorista alemã em seus esquetes simulando pensamentos, “será que…”.

Foi pesquisar. Abba. “Dancing Queen”.

Colocou o vídeo para rolar.

Seu queixo caiu como caía o queixo do Coiote diante de uma canalhice do Papa-Léguas.

Que época era aquela, senhor, onde se faziam canções assim?

E que vídeo era aquele, transbordando inocência e leveza, com apenas pessoas dançando, sem se preocupar se seus menores gestos seriam, primeiro, interpretados, depois, “cancelados”, e, finalmente, proibidos?

Ela decidiu não ver “Succession” aquela noite.

Viajou para 1975 – mesmo tendo nascido dez anos depois.

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