5 de março de 2024
Colunistas Ilmar Penna Marinho

O adeus do Ex-juiz Moro e o adeus do Ex-ministro Moro

Em plena quarentena do Covid-19, o Ministro da Justiça, Sergio Moro, justificou numa coletiva à imprensa a saída do governo:
“- Faça a coisa certa, pelos motivos certos, e do jeito certo”.

Era uma vez um juiz…
No sempre atual romance “A BESTA DE PA$ADENA” narro a trajetória e as conquistas do ex-juiz Moro da 13ª Vara Federal de Curitiba. Como investigou o “maior esquema de corrupção de todos os tempos no Brasil”, que desviou bilionárias verbas, hoje essenciais à melhoria da saúde pública. Como ganhou notoriedade nacional e internacional, julgando, em primeira instância, os crimes da Operação Lava-Jato, de 2014 até fins de 2018.
Sem a máscara do mito, o romance policial traz à tona a imparcialidade e a lisura do seu comportamento ético e jurídico.
Comprova sua alta competência em condenar um grande número de políticos, empreiteiros e empresas. Conta, como conseguiu condenar o ex-presidente Lula a nove anos e seis meses de prisão, em 2017. Decisão esta, mantida em segunda instância, que só foi revogada por vexaminoso julgamento do Supremo.
Notabilizou-se pela venerada “biografia” de vitórias em prol de um mais eficaz processo penal.
Era uma vez um Ministro…
Em 1° de janeiro de 2019, Moro foi o primeiro Ministro a tomar posse no governo do eleito Presidente Bolsonaro. Por livre escolha, exonerou-se do cargo na magistratura.
Assumiu o Ministério da Justiça e Segurança Pública, onde desafios e conspirações o perseguiriam num ambiente de trabalho dissonante do Judiciário.
Mal chegou a sua imagem de paladino da ética sofreu um grande desgaste com a série de denúncias da #VazaJato do site The Intercept Brasil e também da mídia do país e do mundo.
Os desentendimentos com o Congresso e o Supremo resultaram em sucessivas derrotas. O positivo Pacote Anticrime e Anticorrupção virou uma colcha de retalhos nas comissões legislativas. Teve rejeitado o excludente de ilicitude (ampliação da legítima defesa) e teve de tolerar um tal de “juiz de garantias”, uma fantasmagoria no direito processual penal.
Sofreu baixas importantes: não emplacou o plea bargain (delação premiada no varejo) e o COAF foi para o Banco Central. A contragosto, abrigou a FUNAI na pasta da Justiça.
Negligenciou nas investigações da facada contra o candidato presidencial eleito.
Amargou a soltura do “criminoso” Lula, junto com centenas de bandidos perigosos, agraciados pelo escandaloso fim da prisão em 2ª instância, que sepultou grande parte do seu brilhante trabalho de ex-juiz.
Não teve competência, nem perseverança, como Ministro para vencer os seus adversários, congressistas e togados do STF, que conseguiram o impossível: não só paralisar os avanços da Operação Lava Jato, como encolher as conquistas históricas, quase “zerando tudo”. Deixou a Dilma Rousseff impune, rindo do seu apelido secreto: “Russo”.
O pior do saldo negativo foi banir o sonho do “combate à corrupção e à impunidade” para o Brasil reencontrar o seu futuro digno e não se envergonhar do Primado da Justiça.
Antes do adeus, 32 mil criminosos foram soltos, sob o “subterfúgio” do Covid-19.
O Brasil perdeu um ex-juiz ético, que nunca devia ter aceito ser um Ministro.
Sr. ex-Ministro, o Sr. fez a coisa errada, pelos motivos errados e do jeito errado…
Sua “biografia” desabou…
O Brasil agora se concentra numa prioridade: sobreviver à pandemia do coronavírus e ao oportunismo dos políticos.

Ilmar Penna Marinho Jr

Advogado da Petrobras, jornalista, Master of Compatível Law pela Georgetown University, Washington.

Advogado da Petrobras, jornalista, Master of Compatível Law pela Georgetown University, Washington.

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