8 de agosto de 2022
Colunistas Fernando Gabeira

Diário da crise XXIII


É muito parecida a situação interna do Brasil com a dos EUA no campo do combate ao coronavírus.
Parecida nas contradições. Lá o duelo é entre Trump e Anthony Fauci. Aqui no Brasil, entre Bolsonaro e Mandetta.
Sei que não é animador comparar os dois países nesse momento pois os EUA tem o maior número de casos no mundo. No momento em que escrevo já passou dos 300 mil.
Trump sempre foi mais reticente do que Fauzi sobre a necessidade do isolamento social. Custou a aceitar os argumentos do grande infectologista que dirige o trabalho de saúde nesse campo.
Por outro lado, Trump foi muito entusiasmado com a cloroquina, remédio a que chamou de game changer, isto é algo que viraria o jogo contra o coronavírus.
No Brasil, Bolsonaro não é apenas reticente nem aceitou o isolamento com atraso, como Trump. Ele é contra e acha que todos devem voltar ao trabalho, menos os integrantes do grupo de risco. Mandetta é pelo isolamento social.
Da mesma forma, Bolsonaro é um entusiasta da cloroquina. Importou o produto da Índia e acha que deve ser ministrado em todos os estágios da doença. Mandetta é reticente porque as pesquisas ainda não autorizam a certeza de Bolsonaro.
Nos Estados Unidos, os partidários mais entusiasmados de Trump iniciaram uma campanha intitulada demita Fauci. Ele foi ameaçado de morte e precisa se mover com seguranças.
Aqui no Brasil, alguns partidários de Bolsonaro também pedem a demissão de Mandetta. Não há noticias de que o ameaçaram de morte. Apenas o governador de São Paulo está sofrendo essas ameaças.
Dois enfoque semelhantes no populismo, Trump e Bolsonaro duvidaram desde o inicio da seriedade da expansão do corona vírus. No princípio a consideram uma invenção da mídia para derrubar seus governos.
Trump vai às eleições este ano. Bolsonaro ainda tem tempo mas teme que a crise econômica destrua sua popularidade.
A passagem do corona vírus pelos EUA e o Brasil ainda não se completou. Trump e Bolsonaro talvez pudessem agir diferente, mas existe uma coerência no seu embate com cientistas, intelectuais e imprensa.
É muito cedo para prever o que vai acontecer com eles. Mas o corona vírus, dada a sua gravidade e o número de mortos que provoca, pode ser devastador para sua experiência.
Passou muito longe deles uma previsão de algo como o que acontece agora. Por temperamento e viés político, Barack Obama talvez estivesse melhor nessa luta. Ele previu a vinda de uma gripe tipo espanhola e pregou a necessidade de construir uma estrutura global para enfrentá-la.
Mas foi apenas um discurso. O prestígio da ciência, da própria segurança biológica entraria em declínio nos EUA.
Aqui no Brasil, onde os recursos eram ainda mais escassos, o declínio também se acentuou inclusive com a revoada de importantes pesquisadores.
Vamos ver como reconstruir tudo, um pouco adiante, apesar das terríveis condições esperam, no curto e médio prazo.
Blog do Gabeira

Jornalista e escritor. Escreve atualmente para O Globo e para o Estadão.

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