7 de julho de 2022
Colunistas Fernando Gabeira

Diário da crise CDXLIII

Apesar de toda a confusão em que vivemos, pandemia, corrupção, o tema que mais atrai no dia de hoje é a morte de Lázaro Barbosa, depois de 20 dias de caçada policial.

O próprio Bolsonaro apressou-se a comemorar o feito da polícia goiana, tirando um pouco o foco do escândalo da Covaxin, manobra que vai durar pouco, pois a semana apenas recomeça para a CPI.

Desde o princípio, esperava que a busca a Lázaro durasse algum tempo. Ele se desloca com leveza num terreno que conhece bem. A polícia vem das grandes cidades e, ainda por cima, move-se com equipamentos.

De uma certa maneira, a caçada foi também um psicodrama que mostrou alguns aspectos bem típicos do interior do Brasil. Lázaro teria sido apoiado por grandes fazendeiros que queriam atemorizar pequenos proprietários para comprar suas terras e posses na bacia das almas.

Houve também preconceito contra as religiões de raiz africana e também uma deputada armada num helicóptero dizendo que iria caçar Lázaro. Pura bravata eleitoreira num período em que as armas têm um certo glamour para o grupo que está no governo. Quando não estão armados de fato, simulam uma arma com os dedos.

Dia triste para o jornalismo e a cultura brasileira, com a morte de Artur Xexéo. Ele sempre teve um grande papel no jornalismo cultural e além disso muitas boas interpretações sobre o momento político.

Tive a oportunidade de participar de algumas edições do Estúdio I com ele e acompanhava sua trajetória com admiração e respeito.

Começa uma semana muito especial. Senadores devem pedir que o Supremo investigue Bolsonaro por prevaricação, palavra que entra no dicionário cotidiano.

Bolsonaro soube da compra da Covaxin e suas irregularidades e nada fez. Deixou de responsabilizar o deputado Ricardo Barros e empregou a mulher de Barros depois da denúncia.

Interessante que Bolsonaro, depois de tudo que aconteceu na sexta-feira, limitou-se a dizer que não sabia. É um tipo de argumento para o qual estamos, ou deveríamos estar, vacinados.

Até agora, nem defendeu nem atacou o deputado Ricardo Barros. Decidiu mantê-lo na liderança do governo, para “não agravar a crise”.

Ilusão. A crise escalou alguns degraus e deve se manifestar nas ruas, nos tribunais e no parlamento.

Estávamos indo bem com dias de sol e hoje soube que teremos uma nova frente fria. Um pouco de inverno também não é problema. O Ministro da Energia vai falar daqui a pouco. Certamente vai explicar a crise hídrica e pedir colaboração. Deixo para amanhã o comentário.

Fonte: Blog do Gabeira

Jornalista e escritor. Escreve atualmente para O Globo e para o Estadão.

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