3 de julho de 2022
Erika Bento

Meu visto para o inferno


Eu sou um caso perdido. Não acredito em Deus, nas instituições religiosas e nem nas pessoas excepcionalmente boas. O ser humano não é totalmente bom. Ele tem sentimentos de raiva, de revolta, de rancor, de mágoa, de vingança, o que são incompatíveis com os excepcionalmente bons. Ninguém assim conseguiria viver num mundo como o nosso. Não sem sofrer muito e enlouquecer. Se existem estes seres iluminados, não são “humanos”. Estariam aqui com uma missão extra terrestre para evoluir o espírito humano? Pode ser! Eu creio em ETs.
Para mim, as religiões foram criadas para dominar o homem pelo medo, e conseguem até hoje! Medo do juízo final, da reencarnação, são muitas as formas de terror psicológico usadas pelas religiões para ter os homens sob seu domínio.
Deus? Se ele existiu um dia, criou a centelha da vida e desapareceu, ou dormiu no sétimo dia e acordou só para incendiar Sodoma e Gomorra e, ainda inexperiente de seus poderes paranormais, causou um dilúvio universal!
Não acredito em santos nem oro a eles. Aliás, não oro a nada nem ninguém. Imagine milhões e milhões de pessoas orando, pedindo, rogando! Faço a minha parte deixando o balcão dos desejos sem as minhas lamúrias. Passo a vaga adiante!
A quem recorro em momentos de dor? A um analgésico. E quando me dói a alma, respiro, choro, me descabelo! E um dia ela passa. Ou não. Aprendo a conviver com ela.
Mas acredito na fé! Esta, sim, possui uma força absurda, porque as pessoas que creem o fazem com tanto fervor que, por sua capacidade de crer, podem até atingir seus objetivos. São elas que operam seus milagres, não o Santo Expedito, São Judas ou o São-qualquer-coisa-que-seja!
E eu tenho fé! Tenho fé na Física, tenho fé no bem, tenho fé no amor e tenho esperança, acima de tudo. Estou sempre esperando… mas, na dúvida, não fico de braços cruzados.
Não aceito crimes contra a vida humana. Mas, confesso, já desejei o mal a alguém (talvez alguns…). Não me orgulho disso, mas não me envergonho. Afinal, sou humana!
Crianças são sagradas. Não se toca em criança, não se abusa de criança, não se faz qualquer mal a uma criança. Mas o mundo está cheio desta crueldade e, se existisse um Deus, ele não permitiria. Mas ele permite e não adianta me dizer que é tudo um plano divino, que é o livre arbítrio ou que a maldade vem do homem e não de deus e que ele não tem nada a ver com isso. Nada justifica a omissão “divina” sobre os momentos de dor e abuso sofridos por uma criança.
Não aceito muito menos o argumento de que é um resgate de erros cometidos no passado. Esta criança de hoje não sabe porque está sofrendo. Porque está sendo queimada com pontas de cigarros, porque está acorrentada, sendo espancada e sentindo fome ou porque está sendo penetrada à força numa agonia que pode levar horas, dias, meses ou anos, por um ou vários algozes!
E, se isso enoja você, aposto que não é a metade do sofrimento que milhares de crianças estão passando neste exato momento, enquanto – talvez – você ache um total absurdo minha associação do sofrimento à não existência de Deus. Que ele salve as crianças e mostre a sua face pura, santa e cheia de amor! Aí, talvez, eu comece a acreditar no seu poder, bondade e justiça!
Eu poderia aceitar tudo coexistindo com Deus e entender que Ele é Ele e o resto é consequência do próprio homem. Menos isso. Os crimes contra as crianças são, para mim, a mais pura prova da inexistência deste Deus tão louvado, adorado, salve salve. Não, este Deus, para mim, não existe e se existe é o mais perverso arquiteto humano!
Mas, antes que os fervorosos religiosos me deem um visto para o inferno (como se já não estivéssemos todos nele!), respeito a crença alheia (seja ela qual for) e concordo que seja preciso acreditar em algo, pois viver na sombra da crueldade humana é como se debater num terreno movediço. É preciso ver o sol, a luz e a beleza da vida! E eu acredito! Oh Lord, I believe!!
Acredito no amor e que ele pode transformar uma vida sombria em uma leve e doce existência. Acredito no bem que existe dentro de mim e dentro de muitas pessoas que conheço. Creio que este bem esteja tentando promover o equilíbrio necessário na sociedade. Se este equilíbrio já existe ou não, depende do ponto de vista de cada um.
De onde vejo o mundo e os homens, ainda faltam muito, mas chegaremos lá!
Publicada em 12/02/2010 – Memória do Boletim

Jornalista, foi repórter e apresentadora de telejornal por oito anos, atuando como editora e editora-chefe nas principais emissoras do país por mais de cinco anos. Jornalista por 15 anos. Atualmente radicada no exterior.

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