13 de junho de 2024
Colunistas Erika Bento

De volta ao Brasil após quase seis anos

Imagem: Google Imagens – DNA

A ansiedade não me deixou dormir no dia anterior ao embarque. Iria ver meus irmãos, meu filho, minha mãe e minhas amigas após quase seis anos de ausência, mas isso não era tudo. Veria meu neto de quatro anos pela primeira vez! Era muita emoção antecipada duelando com a necessidade de dormir.

No aeroporto, o estresse do check-in e da passagem pela inspeção das bagagens pareceu mais intenso do que o normal, mas tudo acabou correndo bem e, pela primeira vez na vida, dormi quase o voo todo, felizmente, contrariando minhas expectativas.

O primeiro encontro seria com a minha irmã. Um encontro especial após mais de uma década de distanciamento por motivos vários. O abraço foi longo, mas contive as lágrimas.

Após quase quatro horas de viagem, cheguei à casa da minha mãe. Os anos mostram sinais do tempo mais profundamente nos idosos, mas não para minha mãe. Para mim, ela estava linda com seus cabelos brancos emoldurando o rosto magro e corado por um leve blush que ela aplicou nas bochechas só para me ver. Desta vez não segurei as lágrimas e juntas choramos a alegria daquele abraço. Não foi só o tempo que passamos afastadas que causou tanta comoção. A incerteza e o nervosismo causados pela pandemia havia colocado em risco este reencontro, mas felizmente conseguimos driblar tudo isso e lá estávamos nós, coladinhas nos braços uma da outra.

Encontrar meu filho e meu neto foi outra emoção a qual não tenho palavras para descrever. Meu filho sendo pai. Um pai amoroso, dedicado e presente. Meu neto, uma extensão da minha própria existência, me fez regressar ao passado quando o pai dele era ainda um menino. Os mesmos traços, a mesma voz, os mesmos dedinhos perfeitos, os mesmos olhinhos curiosos e inocentes. Queria segurá-lo forte nos meus braços para compensar todos as canções de ninar que nunca embalei os seus sonhos infantis. Contive o ímpeto e deixei que a nossa proximidade acontecesse naturalmente. Momentos que nunca vou esquecer, tenho certeza, mesmo agora já estando a milhares de milhas de distância novamente.

A alegria de reencontrar os amigos e a leveza como a conversa se desenrola me fizeram pensar em como descrever a sensação de estar de volta ao país onde morei a maior parte da minha vida e mesmo assim, me parece tão estranho.

Não encontro um modo simples de descrever os sentimentos conflitantes deste retorno breve ao Brasil. Sou uma estranha entre uma multidão de rostos desconhecidos caminhando apressadamente pelas ruas em que cresci. O único rosto familiar que vi foi o de um amigo de minha irmã que, para a minha surpresa, reconheceu-me após quase duas décadas desde o nosso último encontro. Amigos próximos dizem que não mudei em nada. Bondade a deles. Saí da minha cidade natal há vinte anos e do Brasil há 14. Mudei sim, e muito. Principalmente por dentro, talvez por isso não seja tão evidente.

As mudanças internas são a causa de tanta estranheza em meu próprio país. O burburinho nos restaurantes e a poluição sonora e visual das ruas me são estranhos. As calçadas remendadas e os intermináveis corredores de fios nos postes que nunca me chamaram a atenção antes, pareceram peças fora do lugar em um confuso quebra-cabeças. Por outro lado, a ótima qualidade do atendimento no comércio me chamou a atenção. Não é à toa que conquistamos tão facilmente o consumidor estrangeiro.

Mas apesar destas e tantas outras diferenças entre o país onde nasci e o país onde hoje chamo de lar, estar cercada por pessoas que eu amo e que compartilharam comigo quatro décadas da minha vida me permitem que eu seja eu mesma por um instante, e isso me fez pensar muito.

Quem fui eu? Quem me tornei? Quem eu teria sido se nunca tivesse deixado meu país? Quantas são as versões de mim mesma? Somos todos frutos de onde existimos? Existo onde não habito?

Talvez eu ainda não saiba todas as respostas, mas fato é que construir uma vida no exterior requer coragem e muito esforço. Criamos uma nova persona que fala uma língua diferente, age de modo diferente, segue uma carreira diferente (na maioria das vezes, como eu), discute temas inerentes a uma cultura diferente, aprende a apreciar coisas diferentes, enfim, uma diferente versão de si mesmo. Uma versão que não é natural, mas moldada com o tempo e necessidades diversas.

No Brasil sou criança, adolescente e parte da minha fase adulta. Na Inglaterra sou apenas adulta rumo a meia idade, mas a beleza de ter a chance de se reinventar está em poder ser quem você quiser.

Escolhi uma nova carreira profissional e me permiti ser livre de julgamentos de terceiros. Não me importa quem eu seja aos olhos dos outros porque não dependo da aprovação alheia para ser bem sucedida. Não há parâmetros de julgamento da minha atual aparência ou comportamento. Provo meu valor no dia a dia e isso é liberador! Gosto de quem sou na Inglaterra, mas confesso que estar no Brasil me fez resgatar pedaços de mim que eu havia esquecido.

Ainda não sei bem quais são e sinto que há ainda lacunas que talvez nunca sejam preenchidas e que fazem as visitas ao Brasil tão especiais; oportunidades de reviver aquela persona que só velhos amigos podem entender. Permitir-se dar uma pausa no aperfeiçoamento do novo ‘eu’ e simplesmente deixar se levar pelas memórias de uma vida antiga e confortável como colo de mãe.

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2 Comentários

  • Célio Jacinto 20 de maio de 2022

    Deus te ilumine na volta para casa! Muito bom retornar para nossa casa, nada é igual, é onde encontramos sossego na alma. O “eu” se encontra com o mais profundo da existência, o núcleo, a interioridade, a interrelacionariedade com os meus.

    • Erika 22 de maio de 2022

      Sim, é muito bom, mas confuso também. Traz a tona memórias difíceis de se enfrentar. Momentos decisivos da minha vida que fizeram de mim quem eu sou hoje. Lembranças de pessoas que me foram importantes, mas que a vida se cuidou de levá-las para longe. Sim, momentos de muita reflexão.
      Obrigada pela leitura e pelo carinho.

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