6 de março de 2026
Tecnologia

A inovação que correu demais e deixou a porta aberta para o crime

A revolução das fintechs no Brasil foi vendida como democratização do crédito, desburocratização bancária e inclusão financeira em escala. E de fato foi tudo isso. O problema é que também foi, na mesma velocidade, uma janela de oportunidade para fraudes sofisticadas e para a lavagem de dinheiro do crime organizado.

A inovação acelerou como foguete, enquanto a regulação, a supervisão e a maturidade dos controles internos caminharam como quem ainda está amarrando o cadarço.

O modelo digital reduziu custos, eliminou agências físicas e simplificou a abertura de contas. Só que, no meio desse ganho de eficiência, muitos processos de validação de identidade, monitoramento transacional e análise de comportamento ficaram frágeis demais para o nível de risco que surgiu. Criou se um ecossistema altamente escalável não apenas para negócios legítimos, mas também para redes de contas laranja, engenharia social e circulação rápida de recursos ilícitos.

Organizações criminosas estruturadas, como o PCC, entenderam isso antes de muita gente do mercado. Enquanto parte do sistema financeiro ainda comemorava o onboarding em poucos minutos, essas facções já exploravam exatamente essa agilidade para pulverizar valores, recrutar intermediários digitais e dificultar o rastreamento do dinheiro.

O que antes exigia logística física, transporte de numerário e alto risco operacional passou a ser feito por meio de dezenas ou centenas de contas digitais abertas com dados de terceiros, vítimas de fraude ou pessoas cooptadas.

A dinâmica é simples e perigosa. Golpes são aplicados em larga escala, os valores entram em contas de passagem, são fracionados, transferidos sucessivamente e rapidamente convertidos em outros ativos ou sacados. Tudo isso dentro de instituições que nasceram com proposta tecnológica avançada, mas que nem sempre investiram na mesma proporção em inteligência antifraude, governança de risco e prevenção à lavagem de dinheiro. A tecnologia que deveria ser escudo virou, em muitos casos, atalho para o criminoso.

Casos que ganharam repercussão, como o envolvendo o Will Bank, expõem como fintechs podem ser utilizadas como instrumento dentro de cadeias de fraude financeira mais amplas. Independentemente das responsabilidades individuais de cada instituição, esses episódios escancaram um ponto estrutural: o problema não é apenas quem sofre a fraude, mas como o sistema como um todo permitiu que contas digitais se tornassem peças recorrentes na engrenagem do golpe.

Quando o volume de transações cresce de forma explosiva e os mecanismos de controle não evoluem na mesma proporção, o resultado é previsível.

Os órgãos reguladores, por sua vez, também foram pressionados pela velocidade da transformação. Regular bancos tradicionais já é complexo. Regular centenas de novos entrantes digitais, com modelos de negócio variados e tecnologia em constante mutação, é um desafio ainda maior. O tempo da norma não é o tempo do código. Só que o crime não espera nem um nem outro. Ele testa, erra, aprende e escala muito mais rápido do que qualquer consulta pública.

Isso não significa frear a inovação, mas sim amadurecer o mercado. Fintech que quer ser levada a sério como instituição financeira precisa aceitar que não é apenas uma empresa de tecnologia com licença para operar dinheiro dos outros. É parte da infraestrutura de segurança econômica do país. Isso exige investimento pesado em monitoramento transacional, times de prevenção a fraudes, integração com bases externas, análise de rede de contas e cooperação ativa com autoridades.

A fase da ingenuidade digital acabou. O discurso de crescimento a qualquer custo, usuário a qualquer custo e conta aberta a qualquer custo mostrou seu preço. Cada fraude em massa, cada golpe viabilizado por contas digitais frágeis e cada operação de lavagem que passa despercebida corrói a confiança no sistema inteiro, inclusive das fintechs sérias que fazem o dever de casa.
O futuro do setor não depende apenas de mais usuários ou de novas funcionalidades no aplicativo.

Depende de algo menos glamouroso e muito mais essencial: controle, responsabilidade e alinhamento entre inovação e gestão de riscos. Se a tecnologia permitiu que o dinheiro circulasse na velocidade de um clique, a proteção também precisa operar na mesma velocidade. Caso contrário, continuaremos assistindo a inovação financeira ser usada não apenas para incluir pessoas no sistema, mas também para profissionalizar o crime dentro dele.

Bruno Cesar Oliveira

Bruno César Teixeira de Oliveira, com uma carreira sólida na gestão de riscos, compliance e prevenção a fraudes em instituições financeiras.

Bruno César Teixeira de Oliveira, com uma carreira sólida na gestão de riscos, compliance e prevenção a fraudes em instituições financeiras.

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