
Em Brasília, muda o discurso, muda o marqueteiro e muda o slogan, mas certas práticas permanecem tão previsíveis quanto o horário da propaganda eleitoral. A mais clássica delas é o chamado pacote de bondades lançado às vésperas da disputa nas urnas. A cada ciclo eleitoral, a política brasileira nos presenteia com um fenômeno tão previsível quanto o nascer do sol: o “pacote de bondades”. O governo de turno, seja qual for sua coloração ideológica, abre os cofres públicos em uma demonstração de generosidade calculada.
O governo Lula parece ter entrado de vez nesse modo. Ampliação de benefícios, afrouxamento fiscal disfarçado de justiça social, programas relançados, crédito facilitado, promessas aceleradas e uma máquina pública funcionando em ritmo de campanha — ainda que oficialmente ninguém admita isso. A narrativa é conhecida: “cuidar dos mais pobres”, “estimular a economia”, “retomar o crescimento”. Na prática, o eleitor percebe outra coisa: ano pré-eleitoral costuma ser época de generosidade estatal.
Essas ações criam uma ilusão de prosperidade imediata, um alívio temporário que mascara problemas crônicos. Em vez de investir em reformas complexas e muitas vezes impopulares como a política, a tributária, a administrativa ou a educacional, que trariam benefícios duradouros, opta-se pelo atalho. O benefício direto no bolso do eleitor gera um retorno político mais rápido e tangível do que a construção de uma ponte ou a melhoria de um índice educacional que só será percebida anos depois. É a vitória do paliativo sobre o estruturante, do clientelismo sobre a cidadania.
E aqui cabe uma honestidade intelectual que anda em falta no debate político brasileiro: Lula não inventou isso. Por isso, seria intelectualmente desonesto — ou, no mínimo, ingênuo — apontar o dedo apenas para o governo atual sem reconhecer que esta é uma peça profundamente arraigada no tabuleiro da política nacional. Lula não é o inventor dessa estratégia. Ele é apenas o mais recente praticante de uma longa linhagem.
O problema é sistêmico. Ele reside em uma cultura política que enxerga o Estado como um patrimônio a ser utilizado para fins eleitorais e em uma sociedade marcada por uma desigualdade tão profunda que torna uma parcela massiva da população vulnerável e dependente dessas transferências de renda emergenciais. O cidadão que luta para fechar as contas do mês não tem o luxo de recusar a ajuda estatal, independentemente da motivação por trás dela.
Criticar o pacote de bondades de Lula é, portanto, um dever. Mas a crítica só se torna completa quando reconhecemos que estamos diante de um vício estrutural, um ciclo que se repete a cada quatro anos, mudando apenas o ocupante do Palácio do Planalto. A verdadeira questão não é se o próximo presidente o fará, mas quando e com que intensidade.
A diferença está na intensidade, no timing e no cinismo do discurso. Quando um governo afirma defender “responsabilidade fiscal”, mas logo depois encontra bilhões para ampliar despesas justamente quando a popularidade oscila, fica difícil acreditar em coincidências. Quando ministros repetem que “agora o povo voltou ao orçamento”, o subtexto político é evidente: associar benefício estatal à gratidão eleitoral.
É claro que programas sociais têm importância real. Há famílias que dependem deles para sobreviver. O ponto não é negar assistência aos mais pobres. O ponto é questionar por que a sensibilidade social do Estado costuma florescer com tanta intensidade perto das eleições.
A verdade é que o Brasil criou uma cultura política em que governantes usam o Estado para melhorar indicadores antes da urna, enquanto opositores fingem indignação até chegarem ao poder e fazerem algo parecido. Lula apenas segue uma tradição brasileira antiga: a do presidente que, diante da aproximação eleitoral, abre os cofres, acelera anúncios e aposta que a memória curta do eleitorado será mais forte que a preocupação com as consequências futuras.
A novidade não é o método. A novidade talvez seja apenas o grau de naturalização disso tudo. E enquanto cada governo repete o mesmo roteiro com atores diferentes, o país segue preso ao eterno ciclo nacional: bondades agora, cobrança depois. O desafio para o Brasil não é apenas condenar a generosidade eleitoral do governo de plantão, mas construir instituições e uma consciência cívica fortes o suficiente para quebrar esse ciclo vicioso.
O brasileiro já aprendeu a reconhecer esse movimento. Brasília passa três anos falando em limites, teto, equilíbrio e responsabilidade fiscal e prudência. No quarto ano, descobre-se subitamente que “há espaço” para gastar mais. A conta, porém, não desaparece. Ela apenas é empurrada para depois da eleição — geralmente em forma de inflação, juros altos, dívida crescente ou aumento de impostos. O benefício imediato gera aplauso; o ajuste posterior gera silêncio oficial.
Precisamos de uma política que pense nas próximas gerações, e não apenas nas próximas eleições. Até lá, o calendário da generosidade continuará a ditar o ritmo da nossa economia e da nossa democracia.

