15 de maio de 2026
Ligia Cruz

O abraço no inimigo

Não bastasse o fato de se fazer festa para a posse de um ministro em um tribunal que nem deveria existir se o Brasil fosse um país sério, o resultado final foi uma catástrofe política.

E o day after foi de ressaca mesmo para quem não se fartou no cardápio farto, regado a vinhos caros e charutos, na comemoração de posse de Kassio Nunes Marques no TSE.

A festa não interessa, mesmo sendo uma excrescência, fruto da cultura de uma republiqueta das bananas, como se diz. Um tapa na cara do cidadão que vota e paga a conta.

Mas o que se destacou foi a derrapada de Michelle Bolsonaro, num evento em que ela não deveria estar. Ela não teria nenhuma vantagem política ali. Um erro de visão estratégica.

Agora esse deslize está sendo julgado pelas redes sociais. Há uma divisão entre condenar e absolver Michelle Bolsonaro, pelo abraço e beijo mal dado em Alexandre de Moraes no evento.

De fato, não foi um contato apropriado. Essa proximidade deveria ter sido administrada por sua assessoria. Ela caiu numa cilada grotesca de Alexandre de Moraes.

Primeiramente, em eventos assim, figuras públicas têm seus assentos escolhidos por assessores para evitar constrangimentos e confrontos com opositores. Não foi o que aconteceu no caso de Michelle.

A impressão que deu foi que ela estava completamente sozinha em meio a um ambiente que ainda não está acostumada a frequentar, em que pese ter sido primeira dama.

Fatalmente aconteceria confrontos desagradáveis porque a suprema corte e a cúpula do governo estava presente em peso. O que ela foi fazer lá afinal, além de se expor a situações delicadas? Não havia necessidade.

Jair Bolsonaro, seu marido, foi condenado a 27 anos por Alexandre de Moraes. Por si só esse já deveria ser o motivo principal de sua ausência no evento, mesmo se tivesse sido convidada. Formalizaria as escusas e passaria imune a tropeços.

Para sobreviver nesse meio tem que ter preparo, estofo político, assessoramento e muito sangue frio. Michelle não tem nada disso apesar de ser presidente nacional do PL Mulher. Ela é principiante na matéria. Ainda não adquiriu a casca grossa que os políticos têm que ter para apanhar e se defender.

E tudo já começou errado neste caso. No salão do TSE sentou-se praticamente ao lado de Viviane Barci, esposa de Moraes e implicada no escândalo do caso Master, uma criminosa e corrupta de envergadura que deveria estar presa se a justiça não estivesse toda aparelhada. Esse vacilo poderia ter sido evitado, com uma simples troca de lugar.
E a advogada, que obviamente tem treinamento em casa, não se furtou à oportunidade única de tirar proveito da vantagem política e ser simpática com a ex-primeira dama.

Em eventos políticos é comum os cumprimentos até simpáticos entre oponentes, com tapinhas nas costas e abraços mal dados, para dizer que fora da disputa política não há questões pessoais. Mas o caso de Michelle não é esse.

Mesmo sendo pré-candidata ao senado, sua condição de esposa de ex-presidente preso ilegalmente torna tudo complexo. O julgamento nas redes sociais trata disso. E não é purismo ou radicalismo, mas como o eleitor de direita reage. Implacável.

Ela se colocou em posição de risco quando permitiu que Alexandre de Moraes avançasse sobre si propondo um abraço. Deveria ter sido esquiva e extremamente formal no contato, mesmo já o conhecendo de contatos anteriores na negociação para conseguir prisão domiciliar para o marido.

Todo risco tem um preço. De fato, visualmente ela pareceu incomodada e não soube como reagir ao fato. O algoz de seu marido agigantou-se sobre ela num abraço como se fossem velhos amigos. Isso foi um ato de extrema maldade. Coisa típica de Moraes.

Esse tipo de situação seria evitada se Michelle fosse treinada por assessoria política, o que não parece ser o caso. No mínimo ela deveria ter esticado o braço propondo um distanciamento físico e dar apenas a mão, evitando contato corporal. Ou até mesmo, se esquivar ao máximo de circular onde ele e outros detratores de seu marido estivessem. Isso foi coisa de principiante, pura ingenuidade.

O dia depois dela deve ter sido amargo e de extrema reflexão ao ver a mídia conservadora julgando-a e a esquerdista rindo do malfadado encontro.

Ela não publicou nada a respeito, nem mesmo se defendeu porque na verdade não houve nenhuma devassidão no seu comportamento, apenas caiu como presa fácil por pura falta de preparo.

Agora já foi, é juntar os cacos e seguir em frente com o seu périplo de esposa de prisioneiro injustiçado, enfermeira, mãe e futura senadora que está aprendendo o quanto a política pode ser cruel.

O que vem à mente é a eternizada frase atribuída a Júlio Cesar em 62 A.C. “A mulher de Cesar não basta ser honesta, precisa parecer”. Ele teria dito isso ao se divorciar de sua esposa Pompeia Sula, após um escândalo. Não é o caso de Michelle, mas a turba maligna da oposição vai explorar o fato ao máximo, enquanto a direita vai julgá-la com severidade, sem compreender o contexto.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.