15 de maio de 2026
Editorial

Blusinhas, discursos e suas contradições

O episódio da chamada “taxa das blusinhas” é uma aula prática dessa elasticidade moral.

A política brasileira produz fenômenos curiosos, mas poucos são tão didáticos quanto a trajetória da chamada “taxa das blusinhas” no atual governo. Em questão de meses, ela conseguiu ser apresentada como justiça tributária, crueldade social, necessidade fiscal, erro político e, finalmente, medida a ser revertida — tudo dentro do mesmo mandato e sob os mesmos protagonistas.

Primeiro, o governo embalou a taxação como uma cruzada civilizatória. Era preciso proteger a indústria nacional, corrigir distorções, combater fraudes, modernizar a fiscalização e garantir “isonomia concorrencial” — expressão tão técnica quanto útil para esconder que, no português claro, significava cobrar mais imposto de quem comprava uma camiseta parcelada em doze vezes sem juros.

Então Lula entrou em cena. Resolveu falar como se fosse comentarista político da própria administração. Disse que considerava equivocado taxar os pobres, questionou: por que o governo cobraria imposto de quem compra bugigangas, enquanto viajantes mantinham isenções generosas em free shops?

Por alguns dias, o Brasil assistiu a um espetáculo raro: o presidente parecia liderar a oposição contra uma medida do presidente.

Parecia que a taxação cairia. Mas não caiu. O governo sancionou a cobrança mesmo assim. A indignação presidencial evaporou diante do acordo político com Congresso, governadores e setores do varejo. Descobriu-se, então, que aquilo que Lula dizia considerar injusto continuaria valendo por necessidade institucional. Traduzindo do dialeto de Brasília: falou-se uma coisa, fez-se outra.

Agora, a lógica virou novamente. O mesmo governo que defendia a taxação como medida responsável resolveu eliminá-la em nome do alívio ao consumidor. O que ontem era proteção da economia nacional virou peso excessivo sobre a população. O que era “justiça tributária” passou a ser desgaste político.

Aí, veio a sanção. A taxa foi mantida. O discurso indignado evaporou. Descobriu-se, subitamente, que a necessidade política exigia pragmatismo, responsabilidade fiscal e compreensão institucional. Evidentemente, é uma medida claramente eleitoreira.

O mesmo governo que antes defendia a taxação como imperativo técnico agora a revoga como gesto social. O que ontem era responsabilidade fiscal virou insensibilidade. O que era proteção da economia nacional converteu-se em peso indevido sobre o consumidor. O erro deixou de ser erro quando foi criado e passou a sê-lo quando se tornou eleitoralmente inconveniente.

No Brasil, a verdade oficial tem prazo de validade menor que entrega expressa da Shopee, por exemplo.

A coerência, essa velha senhora antiquada, foi aposentada por falta de utilidade política. Hoje, convicções entram e saem do Palácio com a mesma facilidade de uma promoção relâmpago: duram enquanto forem convenientes. Se amanhã as pesquisas indicarem que o eleitor sente falta da taxação, não duvido de uma cadeia nacional explicando que revogá-la foi necessário para, paradoxalmente, restaurá-la de forma socialmente responsável.

E tudo será dito com absoluta solenidade, porque, no Brasil oficial, a contradição nunca é contradição. É “recalibragem estratégica”.

A blusinha muda de alíquota. O discurso muda de lado. E o governo segue vendendo cada mudança como se fosse a primeira e única versão da verdade.

No fim, a única coisa que realmente importa nessa história é a coerência. E, como toda mercadoria rara por aqui, continua cara demais.

No Brasil atual, nem mesmo o governo consegue acompanhar a versão mais recente do próprio argumento. É impressionante como certas verdades oficiais envelhecem rápido em Brasília.

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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