
Às vezes um profissional de imprensa precisa encarar os próprios demônios e se colocar à prova para fazer seu trabalho.
Nem sempre é por querer ou por prazer, mas por dever. Isso me remete a um passado distante em que eu estava presente em um almoço de uma entidade empresarial quando surgiu atrasado o ex-governador Paulo Maluf e se sentou ao meu lado.
Pessoalmente, meu estômago embrulhou e profissionalmente tive que engolir. Figura repugnante. Ele me perguntou: “posso me sentar ao seu lado minha filha?”. Respondi com a velocidade de um petardo venenoso: “pode, mas não sou sua filha, meu pai é um homem honrado”.
Não preciso dizer que um silêncio sepulcral se instalou na mesa. Ele, cara de pau treinado e velhaco, se fez de sonso e entabulou conversa com o cidadão do outro lado. Continuei impassível certa de que o almoço desceu quadrado para todos ali. Só um colega presente piscou e sorriu para mim.
Muito bem, de onde veio essa lembrança? Do momento em que decidi ligar a TV e assistir ao desfile da Acadêmicos de Niterói, que faria homenagem ao Lula. Isso para ter minha própria opinião sobre os fatos. Nada que eu, previamente, não soubesse.
Que asco foi ver governistas se divertindo fantasiados, rindo junto ao boquirroto sorridente de Garanhuns, enquanto o país sofre com os dados negativos da economia, a dívida pública crescente, a corrupção se agigantando com os escândalos do INSS e do Banco Master e o atropelo à Constituição.
Com todas as letras, foi um espetáculo pífio e grotesco, que custou R$ 1 milhão aos cofres públicos. Um deboche vergonhoso e vingativo como é praxe do PT. E mais R$ 12 milhões entregues ao governador Eduardo Paes para o Carnaval deste ano. Tudo bancado pelo cidadão.
Óbvio que o samba enredo foi encomendado e, certamente, várias escolas foram consultadas e não se prestaram ao papel de adular um chefe de estado perdulário e corrupto que está cometendo crime eleitoral e levando o país à bancarrota.
A escola que topou a missão de ir à Sapucaí e fazer propaganda enganosa por Lula, até outro dia não integrava o primeiro grupo. Era da segunda divisão do Carnaval do Rio (Série Ouro). Mas o dinheiro faz tudo ser possível.
E, certamente, o negociador de tudo foi o marqueteiro Sidônio Palmeira, aquele que tenta fazer Lula parecer o que não é.
A cereja do bolo do desfile seria Janja como destaque de um carro alegórico com o tema “Amigos de Lula”, junto com celebridades da música e artistas da Globo. Porém, de última hora, após a pressão da oposição junto ao TSE, sob a acusação de que o desfile configuraria propaganda eleitoral antecipada, ela foi substituída pela petista Fafá de Belém.
Mesmo com o pedido da oposição de vetar o desfile por estar em desacordo com a legislação eleitoral, a ministra Cármem Lúcia alegou que “não se pode promover censura prévia”. Ou seja, para ela primeiro comete-se o crime, para depois decidir se valeu? Aí, a vítima já morreu. Só que a regra só vale para o seu partido. Um escracho jurídico e constitucional sem precedentes.
Mas, o TSE ainda vai ter que lidar com isso porque a oposição não vai se calar e Lula ainda pode ser impedido porque o próprio desfile é documento, prova cabal. Tudo isso pode provocar sua inelegibilidade.
Obviamente, a primeira-dama da esquerda foi aconselhada pelo jurídico do governo a desistir de sua sirigaitice pública no sambódromo, para não piorar a situação do maridão. E isso ocorreu quando estava prestes a entrar na avenida.
Lógico que causou tremenda frustração e deve ter havido protesto. Tanto que ela não surgiu de imediato no camarote onde estavam o presidente, vice, ministros, parlamentares,velhos petistas e o governador do Rio.
Na avenida, o enredo se desenrolou com sarcasmo e críticas a todos os inimigos da república petista, como Temer por ter traído Dilma, Bolsonaro que surgiu de diversas formas, como palhaço atrás das grades e com tornozeleira, como assassino da Covid e também como personagem jocoso com traje do exército. Até mesmo no desfile a obsessão para com o ex-presidente não foi esquecida.
Além da vingança institucional contra Bolsonaro, sobrou para o agronegócio, a família, a Bíblia, os evangélicos, todos apresentados em latas de conservas. Nem mesmo Donald Trump escapou. Uma ala com figurantes, vestidos com as cores da bandeira americana e orelhas de Mickey, ostentavam a frase: “Make America great again”. Uma edição tosca que não vale mais a pena detalhar.
A “Gazeta do Povo” fez as contas e reproduzo aqui, com os devidos créditos: ao todo foram 79 minutos de propaganda eleitoral gratuita ininterrupta, em canal aberto; o enredo foi entoado 12 vezes; o slogan eleitoral repetido 72 vezes; o velho bordão “olê, olá.. Lula”, repetido seis vezes.
Sem contar que o próprio personagem, coitadão do nordeste que deu certo, desceu na pista para cumprimentar os carnavalescos e se mostrou para o mundo ver como é “querido” pelo povo. Um populista de caráter débil que se crê invulnerável. Se isso não configura propaganda fora de hora e for ignorada, se somará à sucessão de escândalos sem precedentes deste desgoverno.
O que aconteceu no Carnaval carioca é crime eleitoral e tecnicamente Lula estaria inelegível. Em resumo, a Sapucaí foi pequena para tão nauseabundo espetáculo.
Outro dado apurado pela imprensa foi o de que a Globo teve uma queda de mais de 30% durante essa transmissão. Caberia crítica também aos comentaristas e suas plumas todas, mas não vale a pena.
O que não foi mostrado foi o protesto popular com vaias diante da palhaçada petista, que obviamente a emissora ocultou.
No final do sacrifício, só mesmo um sal de fruta e um banho de sal grosso para exorcizar tudo.

